terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Parte da minha alma


Foi essa história que me impediu, por muito tempo, de escrever. Agora ela foi contada. Vamos ver no que dá...

Foto por Paulina


"It's the mistake you always made, Doc, trying to love a wild thing. You were always lugging home wild things. Once it was a hawk with a broken wing... and another time it was a full-grown wildcat with a broken leg. Remember? You musn't give your heart to a wild thing. The more you do, the stronger they get, until they're strong enough to run into the woods or fly into a tree. And then to a higher tree and then to the sky"

- Breakfast at Tiffany's




Eu nunca fui do tipo de pessoa que observa as coisas passivamente, que deixa alguém muito querido se afastar sem fazer nada para impedir.

Não me entenda mal, eu não me descabelo por pouco. Para falar a verdade, o falso estado de "foda-se" me é muito mais confortável do que um confronto no qual eu não estou na posição de ataque. Eu não convenço pessoas a ficar a não ser que não possa viver sem elas. Ou pelo menos é assim que sempre foi.

Quando te conheci, você era a melhor amiga de outra pessoa. Lembro que vocês faziam absolutamente tudo juntas, inclusive, ocasionalmente, tomar banho. Naquela época, isso não era considerado um ato lésbico, embora vocês não se alterassem nem um pouco se fossem apontadas como tal.

Eu, por outro lado, não tinha um par fixo. Às vezes tinha um "+ 1" por perto, às vezes só brincava do lado de fora do círculo.

Eu não lembro exatamente quando ou como aconteceu. Mas a outra se afastou, você se aproximou, e eu e você viramos eu e você.

Dizer "eu e você" desse jeito não faz jus à realidade. Porque era muito mais que isso, pelo menos para mim. Eu acreditava te conhecer como nem mesmo você se conhecia. Eu entendia seus traumas, tentava curar suas feridas e ajeitar e facilitar tudo o que pudesse na sua vida. Cuidava de você como uma irmã mais nova e você deixava.

Vou repetir e enfatizar: você deixava. Você encorajava e se escondia debaixo das minhas asas. Era para mim que você ligava quando não estava fazendo nada, quando tinha muita coisa para fazer, quando tudo estava uma droga, quando estava pensando em se matar, quando sua mãe te batia ou dava os discursos sobre como você era inútil, quando conhecia alguém novo, quando cozinhava, quando queria companhia e quando queria ficar sozinha.

Você também me deixava ler seu diário. Às vezes lia ele em voz alta para mim. E eu fazia sempre o mesmo ritual - recolhia as palavras, colava-as nas paredes e te ajudava a analisar.  Algumas não faziam sentido nenhum: você não era gorda, não era burra, não era doente mental. Os cortes nos seus braços sempre me assustaram, então eu tomava um cuidado especial com isso.

Eu não era nenhuma espécie de anjo que caíra na sua vida. Comecei a levar a sério demais o lance de ser irmã mais velha. Cobrava, dava bronca, ficava decepcionada... Tinha uma voz na minha cabeça dizendo que aquele não era o meu lugar, que eu não devia tomar aquele tipo de liberdade com você, que você ia ficar cansada disso e me mandar pastar. Às vezes era minha mãe que me dizia isso, às vezes era a Naira. Eu fiz questão de ignorar.

E então você saiu da casa dos seus pais, foi morar com aquele cara. Arranjou aquele emprego e ganhou aquela personalidade. Mas a gente até que se adaptou. Eu fugia, de vez em quando, e ia até o seu trabalho, bater um papo na hora do almoço, ou dizia para o meu pai que tinha ido para a casa da Raquel, e ia dormir na sua casa nova - um quarto e uma cozinha que pareciam estranhos e pequenos demais para ser sua casa. Mas sabe com é, você é boa em se conformar com as coisas. Passei muito tempo tentando mudar isso - lembro aquela vez que sua mãe te disse que você era burra demais para passar na USP, e eu fiz questão de escrever em letras garrafais e explicar com maçãs como era só questão de empenho, de estudo, de vontade. Você nunca acreditou.

É mais ou menos aí que as coisas ficam complicadas. Eu já estava acostumada com seu jeito descuidado. Você não ligava, mas fazia um escândalo quando eu ligava, dizendo que eu demorei tempo demais. Não aparecia, mas me abraçava e dizia que estava ficando louca de saudade quando a gente se via. Nunca brigava, simplesmente pelo fato de você não se importar em fazê-lo. Isso me deixava louca.

Fiz um teste. Fiquei sem ligar um mês. Dois meses. Três meses. E a raiva começou a ganhar a parte do meu coração que era sua. Porque eu sempre te amei mais do que você me amou. E você não sabe - não sabe - como é precisar de alguém de tal forma que, mesmo não sendo recíproco, você encara a relação mesmo assim. E você diz a si mesmo que pelo menos a pessoa está por perto, e não vai ter nenhum buraco vazio na sua alma.

Mas a gente sabe bem que isso não dura muito. Porque você conheceu aquela menina. A drogada. E sua personalidade esponja se encarregou de te transformar em uma drogada também. Você largou a faculdade, voltou para a casa dos pais, se tornou atendente de telemarketing (de corpo e alma) e perdeu todos aqueles sonhos que você me contou. Todos eles. E eu gostava daqueles sonhos, eu admirava aqueles sonhos.

Ele me disse que te encontrou na rua e você não o reconheceu. Que estava drogada demais. Mas que parou quando ele chamou, e falou alguma coisa sobre ir para a Bahia de kombi, para viver em uma comunidade alternativa. É. É bem a sua cara. Você sempre quis as coisas de forma fácil. Lembra de como você queria se aposentar por incapacidade mental, e eu tive que te convencer que isso era para quem, alou, tinha problema mental?

Eu nunca mais te vi depois disso, mas sempre penso em você. É mais difícil lembrar das partes boas agora. Da forma como falávamos em um idioma que era só nosso, de que deixávamos o mundo para fora quando nos encontrávamos, dançávamos na chuva chamando os deuses e os elementares do vento, fazíamos planos mirabolantes, escrevíamos poemas, contávamos segredos e inventávamos um mundo alternativo, onde a gente tinha tudo o que precisava...

É mais difícil lembrar disso agora, porque em setembro eu te liguei. Você disse ter ficado muito emocionada. Convidei para o meu aniversário e você jurou pela sua honra que iria. Que eu só precisava te esperar do lado de fora...

E eu esperei, sabe? Fiquei para fora, na garoa, tentando conter a amargura que sentia no topo do estômago, porque sabia que você não vinha. Eu tinha um monte de gente comigo, e eu não conseguia sorrir, porque eu ficava pensando em como eu sentia sua falta, e como você não simplesmente não viria. Nunca mais.

Fiz a única coisa que podia fazer. Peguei uma caixa, te coloquei dentro, fechei com fita e guardei no armário. Tentei contar a história para outras pessoas, mas ninguém entendeu. Elas diziam "vocês seguiram caminhos diferentes, é normal" - acho a definição um pouco injusta.

O você de agora não vai a lugar nenhum. Não vai fazer grandes coisas, nem ser conhecida em outros países. Não vai se casar com o Rupert Grint, nem morar em Londres. Nem ser rica. Eu não acredito mais em você. Nem um pouco.

Finalmente tenho coragem de pronunciar essas palavras, e é um estado libertador. Juro que não é praga. Mas é uma coisa que soa forte na minha cabeça. E meu instinto não falha. Mas eu torço para estar errada.


Porque apesar de tudo isso, você vai ser sempre parte da minha alma, tá, Gabrieli?

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