quinta-feira, 15 de março de 2012

Sobre o foda-se


Foto / Escrevi ouvindo: Never Let Me Go, Florence + The Machine


Eu fico cansada quando as coisas estão muito ruins. Fico cansada de agir que nem gente. Me sinto um zumbi. Uma coisa sem alma andando entre pessoas completamente normais. E ninguém nota a diferença. Isso me faz pensar na possibilidade de que todos eles também estão na mesma. Somos todos zumbis. E ninguém sabe nada de ninguém.


Mas isso tudo vira mentira. Eu vejo as pessoas se despedaçar, cada uma de uma vez. E quando se quebram, elas ganham anjos. Outras pessoas que estão sempre por perto para dar apoio, força, abraços, beijos, ombros. E quando os anjos de despedaçam, os antigos cacos se transformam em anjos. E tudo começa outra vez.

Menos eu. Eu estou sempre na mesma sintonia. No mesmo fluxo de sentimentos. No mesmo padrão. Eu sou o tipo de pessoa que aguenta qualquer tipo de tranco. E que sai firme e forte do outro lado.

Em três meses muita coisa aconteceu. Eu percebi isso lendo Os Filhos de Anansi, do Neil Gaiman. Na verdade, eu ainda estou lendo. E está sendo tremendamente difícil. O livro é incrível, não é esse o problema. Mas ele toca em várias feridas minhas que foram recentemente reabertas. E eu preciso fazer força para não sair correndo. Afinal de contas, parte do processo de continuar em pé é fugir da nossa própria desgraça. Você corre, e fica bem.

Mas ninguém corre da morte, e o Sr. Joaquim morreu. Ele era marido da minha avó, e o meu terceiro avô, por consideração. Ele me deu o capotraste dele. Já fazia um tempo que ele não conseguia tocar, os braços e as pernas dele estavam duros, e ninguém entendia bem o por que. Este ano ele teve um derrame e ficou internado até pegar uma infecção e morrer. Minha avó está triste. Eu fico triste por ela. No enterro ela disse que ele não tinha dado nada material para ela, mas tinha dado carinho e nunca tinha batido nela. E que isso era o bastante. O meu avô de verdade batia nela. Por isso a frase.

Eu acho que o Sr. Joaquim podia ter vivido mais. E o meu avô batedor de mulher podia ter ido embora no lugar dele. É uma coisa horrorosa de se dizer, que faz uma parte de mim se chocar com a minha própria atitude. Mas é um pensamento sincero.

O velório dele aconteceu durante à madrugada de uma sexta para sábado, eu não lembro exatamente o dia. Eu fiz o que sempre faço em velórios. Me senti constrangida. Eu não toco em mortos. Nunca toquei, e tenho a impressão de que eles vão me olhar feio se eu tocar. Todo mundo gosta de encostar neles, sentir a pele gelada e dar beijos na testa.

Mas o problema, na verdade, é que todo o ritual de velório e enterro é cristão. Crentes e Católicos. Nesse caso, ambos. E eu sempre sento do lado de fora, por alguns minutos, para pensar que quando eu morrer ninguém vai fazer o tipo certo de velório e cremação. E isso só me lembra que eu o que as pessoas chamam de "bruxa solitária".

Eu me sinto perdida espiritualmente principalmente por ter que passar por tudo sozinha. Eu me sinto perdida. Eu tinha alguém, e esse alguém se afastou. Eu tinha outro alguém, que também se afastou. Eu perdi duas amigas esse ano. Não entenda mal, elas estão vivas, mas elas não são mais minhas amigas.

O que importa é que, por muito tempo, elas foram as pessoas mais importantes na minha vida. Eu dei muito de mim mesma em ambos os relacionamentos. Eu as amava mais do que à mim mesma. E perdi as duas recentemente. Isso não é algo que eu tenha conseguido assimilar ainda. Não é uma informação que desce graciosamente pela minha garganta. É uma dor constante no meu peito, como uma costela quebrada.

Principalmente ela. Sabe? Eu fico bêbada e eu tento achar o número dela no meu celular. Sorte que eu apaguei. Mas eu não sei se é sorte. Eu fico bêbada e eu penso nela. Eu sinto cheio de creme de cabelo e eu penso nela. Eu sinto cheiro de álcool e eu penso nela. Eu penso o tempo todo nela. Eu ainda não cheguei na etapa em que eu sinto um carinho tremendo por ela e desejo tudo de bom para seu futuro. Eu ainda tenho um buraco negro dentro de mim, que fica exalando ódio e ressentimento e dor. Eu ainda não me livrei dela.

Aquele meu outro problema voltou. Aquele que todo mundo sabe, mas ninguém comenta. Eu uso o primeiro andar do primeiro ou terceiro prédio, daí ninguém percebe. Eu estou à salvo. No geral, eu me sinto o tempo todo sozinha. Desesperada e angustiada. Eu sinto que sangrar seria mais agradável do que estar bem. Porque assim eu poderia fazer algo para estancar o sangue. Tenho vontade de gritar.

Mas eu sou do tipo que aguenta qualquer coisa, eu não disse? E eu aguento tudo isso. Eu sou resistente. E eu posso sofrer, mas eu não morro por ninguém...



O que as pessoas não percebem, é que o fato de eu não quebrar não significa que eu não me machuque. E que eu preciso de um anjo tanto quanto todo mundo. Mas foda-se.


4 comentários:

  1. Dificil de comentar algo como isso... eu sei parcialmente o que você passou com relação às amigas perdidas, pq felizmente eu sou uma boa ouvinte (eu acho)...

    Com relação ao enterro adequado, se você deixar as instruções, eu prometo, que se você morrer antes de mim, providenciarei tudo... mas é claro, isso vai demorar muito tempo ainda.

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  2. Concordo com a Lu ali em cima. E MANO, vai demorar, viu? No mais, quero deixar registrado meu futuro que não velarei seu corpo, mas tomarei um porre!

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  3. Respostas
    1. hauahuah vejo um padrão se formando.

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