quinta-feira, 13 de junho de 2013

Sobre a selvageria humana


foto: Folha de SP

Sarah se sentia indefesa.

Indefesa perante o professor pós-graduado, concursado e bem casado, que tão eloquentemente discursava contra os jovens de classe média envolvidos nas últimas manifestações civis da capital paulista. Indefesa contra uma classe de quarenta e sete alunos e meio, formada de passivistas, pessimistas e conformistas. Indefesa em relação às grossas grades verdes que entrecruzavam as janelas, criando a atmosfera de confinamento.

Sarah se sentia indefesa, mesmo sabendo que, em sua mochila, descansava uma garrafa de vidro, um pano velho manchado, gasolina e um isqueiro novinho em folha.

Na noite anterior, Sarah ficara acordada até tarde. Seu tarde, valia dizer, era mais tarde que o tarde das outras pessoas. Ela separara os materiais cuidadosamente, sem que os pais notassem a estranha movimentação. Encheu, mergulhou, tampou, amarrou e armazenou. Ela sabia que nada aconteceria até que houvesse uma flama, mas não podia evitar sentir como se estivesse carregando bananas de dinamite.

De manhã, antes de ir para a aula, beijou a mãe na testa e pediu benção para o avô. Não voltaria cedo naquele dia. Era dia de protesto.

"Que razão tem um povo que, ao protestar por condições básicas, depreda o patrimônio público?" quis saber uma de suas colegas de classe. Era dia também, parecia, de debate.

O professor coçou a barba mal feita, como se procurasse pela citação certa ou a tonalidade mais dramática. "O jovem criado pela família de classe média sofre de um mal chamado falta de causa. Ele nasceu bem, cresceu bem e teve pessoas que lutaram por ele durante toda a sua vida. Ele não tem pelo que ir à guerra, então ele inventa". Passou os olhar pela classe, esperando que mais alguém se juntasse à discussão.

Sarah fechou os olhos e prendeu a respiração - seu jeito muito efetivo de não se entregar a uma briga inútil. Mas a efetividade do método mostrou-se duvidosa na sequência dos fatos.

"São vinte centavos, pelo amor de deus! Será que essa gente precisa levar uma bomba de gás na cara para aprender a escolher melhor as causas?" comentou um segundo colega.

O professor meneou com a cabeça, em concordância. "O grande problema da sociedade é a selvageria..." começou, gravemente.

O raciocínio, porém, não chegou a ser concluído. Sarah espalmou a mão contra a mesa uma única vez, com a força que sua raiva pediu. O barulho se transformou em silêncio imediato, mas ela não esperou uma segunda reação. Colocou-se de pé e meio cuspiu, meio ladrou as palavras que enchiam sua cabeça, seu peito e sua alma nas últimas semanas.

"A gente se acostuma ao desconforto, ao aperto doloroso de dividir o espaço de um, em sete, e ao cheiro de sujeira humana que inunda o vagão logo cedo. A gente se acostuma ao horário de pico, ao empurra-empurra na ponta da plataforma, aos ratos no trilho do trem e a ser assaltado logo na saída da estação. A gente se acostuma a tudo, a qualquer preço, então tudo vai ser sempre uma grande bosta" ela olhou em volta, para as muitas expressões de reprovação, mas não se deteve. "A gente quebra o patrimônio público porque ele não é nosso porra nenhuma. Ele é de quem tem cem conto para cagar, todo o ano; de quem não anda de transporte público e não sabe o sofrimento que é. Ele é de quem não tá se privando de tudo por causa da inflação e de quem acha que a selvageria humana é o nosso maior problema... Quem tá na rua, se manifestando, sabe bem que o problema é fingir que a sociedade é civilizada, quando o único estímulo que faz algum efeito é a violência".

Sarah agarrou a alça da mochila, jogou nas costas e saiu da sala, sem esperar para saber qual seria a resposta à sua pequena explosão. De repente, não havia mais dúvida. De repente, ela não se sentia mais indefesa.

foto de @raonylemos 
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PS: Não, essa não é, necessariamente, a forma como eu me sinto sobre a situação. Sarah é uma personagem fictícia.
PS2: Eu sei que esse não foi o melhor conto que eu poderia ter feito, mas estou um pouco fora de forma, então achei melhor escrever e exercitar, do que deixar a ideia passar... :)

7 comentários:

  1. Não é necessariamente o seu ponto de vista, mas segue a linha de raciocínio de muita gente, inclusive a minha.
    Fora de forma, mas nunca fora do tempo. Essa crônica é uma boa crítica, Ju.

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    1. Não deixa de ser meu ponto de vista, mas com alguns exageros, digamos assim. Eu não sei se atiraria um molotov, por exemplo.

      very thanks ;)

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  2. Estava acompanhando o noticiario, e depois que você me falou ontem do caos, fui procurar mais informações, já que o que a gente vê na tv está completamente distorcido.

    "São só 20 centavos" é a desculpa de quem tem uma vida confortável, que não precisa contar os centavos no final do mês para não ficar sem água ou sem luz.

    Também não sei se atiraria um molotov por ai, mas acho que QUALQUER CAUSA deve ser defendida. "Falta de causa" é um argumento usado por esses ai, esses ai que manipulam o pensamento da população, que querem que continuemos sendo os carneirinhos prontos para o abate. Nós ainda vivemos numa ditadura, mas agora é a da mídia e a da politica. Não é a hora de lutar contra essa ditadura então?

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    1. O pior é que "esses aí" tem nome, e é nome conhecido e que todo mundo gosta de citar e acatar: Arnaldo Jabor. O vídeo dele foi a coisa mais absurda que eu já vi em relação ao movimento, mais absurdo do que os títulos das matérias da Veja.

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  3. Lindo, Ju. É exatamente isso. Tá entalado na garganta desde o tempo dos nossos pais. Junto com o senso-comum de que brasileiro é alienado e aguenta qualquer coisa passivamente.

    Não achei que fosse viver para ver uma demonstração de patriotismo como essa e para fazer parte disso.

    Sexta a gente tá lá ;)

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