Eu tenho medo de ser doente mental. Eu tenho medo de não funcionar como as outras pessoas, as pessoas com as quais eu convivo.
Na última quinta-feira eu fui até a APAE de Mogi. A equipe da Liga da Alegria foi fazer um "Mutirão da Alegria" com as turmas e eu me encarreguei de tirar as fotos. A primeira coisa que lembrei foi do meu teste do pezinho - lembro que quando era pequena fucei na pasta de documentos do meu pai e achei o tal teste. Tinha a marca do pé, algumas coisas escritas e um carimbo da APAE. Eu fiquei tão impressionada com aquilo que demorei mais de um mês para comentar com a minha mãe. Minha amiga, Laís, estava comigo e ficou tão espantada quanto eu. Não lembro se fez piada ou se fui eu que fiquei com tanto medo de ser piada, que inventei tudo na minha cabeça. Eu temia ter um histórico de doença mental. Ter sido interna da APAE ou qualquer coisa do gênero. Temia ser maluca - na época, eu não entendia muito bem o conceito da associação.
Quando finalmente tomei coragem e perguntei, minha mãe disse que na época em que eu nasci os hospitais não faziam o tal teste. Era preciso ir até lá para ter certeza de que estava tudo bem com o bebê. Para mim, até hoje essa história parece meio mal contada. Meu parto foi normal, mas eu demorei a nascer. Demorei demais e acabei nascendo "afogada" pelos fluídos. Ela diz que é comum em situações assim que a criança tenha danos cerebrais - daqueles bem tensos - e que é um milagre que eu seja "normal", ande, fale e respire sem problemas.
Quando criança eu tinha problemas para dormir. Muito tempo depois, minha mãe me disse que era "terror da noite". Basicamente, eu tinha insônia. E quando meu corpo não aguentava mais, eu dormia enquanto continuava acordada e tinha "alucinações", sem saber que eram na verdade, sonhos. Talvez essa devesse ter sido a deixa para que meus pais me levassem no médico, mas não rolou. Acho que ser filha de psicólogos faz com que eu tenha espeto de pau em casa. E a gente sentou e esperou passar.
Depois, na escola, surgiu aquela confusão com as direções. A dificuldade em achar a esquerda e a direita, o sinal maior e o menor. Eu aprendi a ler e escrever rapidinho, mas a direções me deixavam completamente maluca. Um dia, assistindo alguma coisa na televisão, eu descobri o que era dislexia - o exemplo usado no programa era o de um menino que não sabia dizer em qual lado do papel a flecha estava desenhada. E, de novo, eu esperei aquelas semaninhas boas antes de perguntar para a minha mãe se eu tinha aquele problema. Ela jurou que não. Disse que dislexia afetava a fala, a coordenação e principalmente a leitura. Que eu não devia me preocupar.
E agora, pensando nisso, eu percebo que "não me preocupar" é algo que eu simplesmente não sei fazer. Vieram "aqueles" problemas... E dessa vez não era algo que eu podia perguntar para minha mãe. Eu sabia do que se tratava e como funcionava. E mesmo nos piores momentos, a ideia de "assumir" não era nada atrativa. Eu tinha medo - e ainda tenho - de que algo que para mim é tão grande e devorador, para eles não tenha o mesmo peso. Que mais uma vez sentar e esperar seja a solução.
Mas ainda não é a hora de tratar sobre esse tema. Eventualmente eu percebi que tinha dificuldades na dicção. Minha língua e meu cérebro não andam no mesmo passo, eu esqueço palavras e as frases se formam devagar, desajeitadas. Alguns termos simples me fogem, eu gaguejo e me falta o ar. Falar, na verdade, é um caos. E eu penso novamente sobre todas as minhas "deficiências" e em como todas elas, juntas, parecem uma coisa muito maior.
Tudo isso me ocorre em um "flashback" rápido, enquanto tiro fotos do mutirão. E eu sei bem por que. Alguns internos da APAE esperam, na fila, pela sua vez de pegar o prato de comida, no refeitório. Quando nós - um bando de gente diferente e desconhecida, com o rosto pintado - chegamos perto, eles nos observam. Não é o jeito comum de observar, como vemos nas ruas - de lado, disfarçado, pronto para uma fuga rápida caso os olhos se cruzem. É direto e arregalado. Uma palavra estampada no ar: curiosidade. Não poderia ser mais óbvio, mesmo que estivesse pintado. Reconheço aqueles olhares, a forma como buscam uma explicação.
E eu sei que são iguais aos meus. Absorvo a informação e me pergunto se é algo intrínseco à pessoas como nós. Mas a ideia de uma resposta me deixa mais curiosa do que com medo.