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quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Sobre as primeiras vezes

foto de Rachel Dowda




“Você percebe que você meio que recriou a sua primeira vez com ele?”

Eu olhei fixamente para ela, não sei se meus olhos diziam que sim ou que não. Não sei se eu pensava que sim ou que não. Só sei que eu já tinha pensado em algo similar. Tinha pensado em esquecer a primeira vez, em considerar ele o meu primeiro.

Não porque a primeira vez tivesse sido tão traumática e paralizante. Por mais que ela me diga que eu precise entender quando for invadida, eu ainda acho que ganhei o que busquei. Eu busquei um idiota que leva uma garota para o motel sem saber o nome dela. E que, depois que ela confessa ser virgem, termina o trabalho mesmo assim. Sem cuidado, sem carinho, sem vontade.

E o ato todo se finaliza numa grande chupada no chuveiro.

Parte de mim chora pela falta dos “primeiros”. O primeiro beijo apaixonante. Um com significado e afeto. Um que não seja produto de puxada de cabelo na balada.

Quase eu inteira queria uma primeira vez, se não perfeita, imperfeitamente poética. Por isso pensei em considerá-lo meu primeiro. Ele foi, em todos os sentidos, imperfeitamente poético, do jeito que eu gosto. Do jeito que eu preciso.

Mas eu penso por um segundo em cicatrizes. Aquelas finas e claras, que a gente só vê quando para e presta atenção. Uma redonda, na parte de dentro do meu braço, que me lembra das coisas que eu perdi. Duas no meu rosto, que me lembram de não coçar a catapora. Uma no meu pulso, que me lembra de não ignorar a dor. Uma no joelho esquerdo, que me lembra de não ter pressa. E a primeira vez, que me lembra de não me deixar invadir.

Tem uma amiga minha que odeia a cicatriz dela, uma bem na mão, uma marca de queimadura. Eu digo para ela que é parte da história dela. Digo que é linda, que é significativa e que não pode ser escondida por uma pomada qualquer que faz a pele cicatrizar. Não, porque você viveu aquele machucado e você sentiu aquilo. Eu vivi a minha ridícula primeira vez e eu me submeti àquela experiência. Eu tinha medo e eu agi com medo. Medo de nunca experienciar o que era ser desejada, medo de nunca conhecer o toque de um homem. Medos.

E eu odeio agir com medo. Se tem uma coisa que me orgulho agora é da minha coragem. É de não ser paralizada por nada. É de ter reunido todos as minhas fibras de força e ter sido sincera.

Por isso, uso minha pequena cicatriz da primeira vez como uma tatuagem. Com ela, eu não tenho um caso de amor, como tenho com meu lobo, com meu sigil e com meu “like crazy”. Ela é o meu aviso. Ela me mostra que uma simples dose de respeito faz toda a diferença.

Respeito. Eu demorei pra pensar nessa palavra.

Demorei?

Demorei exatos três minutos olhando para ele para me decidir. Peguei sua mão e puxei-o para o corredor. Não sabia se ele tinha medo, vergonha, falta de vontade ou simplesmente se precisava de privacidade. Só sabia que no corredor as coisas seriam simples, fáceis, claras. E elas foram.

Eu lembro de detalhes. De todos os detalhes. Lembro do sorriso dele, como quem diz “Ok, estou sem graça” e de sua rendição, abrindo os braços e me beijando de um jeito que eu só consigo definir com “com o corpo todo”.

Ele beija com o corpo todo. E era o nosso primeiro beijo.

Meu primeiro algo, veja bem.

Lembro da porta fechando, dos olhares perdidos e dele percebendo meu nervosismo. Do “relaaaxa” dele, que ele diz pra quase tudo, até hoje. Lembro dele tomando o controle.

Eu sempre achei que não gostasse de sexo oral. Eu nunca tinha tentado. Nunca tinham tentado em mim, pelo menos. Talvez por eu ser tão consciente com o meu próprio corpo, talvez por eu detestar tanto as minhas formas. Mas ele não pediu permissão, ele não perguntou se eu queria. Ele também não me invadiu. Ele apenas... Me descobriu.

Outra primeira vez.

Me pego pensando naquele dia 13 e vejo várias primeiras vezes. Várias “matações de vontade”, vários momentos que foram para mim, ele sabendo disso ou não. Ele entendendo isso ou não.

Por isso, quando ela me diz que eu recriei a primeira vez, entendo o que quer dizer. E considero. E penso, penso, penso. Como se de um pensamento algo como uma conclusão útil e bem formulada pudesse sair e resolver todos os meus maus entendidos.

Mas retruco, tardiamente, aqui, deitada na mesma cama em que tudo aconteceu, lembrando das mãos deliciosamente grandes dele na minha pele e do beijo de corpo todo dele, que eu não refiz nada. O que eu fiz foi começar a porra do capítulo 2.


E que das segundas vezes... Bem, delas eu tenho um puta de um orgulho.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Sobre sensações opressivas


Para ler ouvindo: Ache, James Carrington


"O amor é um sentimento opressivo" eu disse sem pensar. Logo depois, aquela velha sensação tomou meu peito, como se tivesse sido evocada. Era um aperto. Um laço prendendo-se ao redor da minha caixa torácica. Parecia, mas não era preocupação. Não era negro e nem branco. Não era carinho e nem descuido. Era quente, intenso e ligeiramente tóxico. Não me deixava respirar. Pelo menos, não sem lembrar tudo o que me disseram para esquecer.

"É só opressivo se você quiser" ele respondeu depois de pensar alguns segundos. Não me perguntou da onde eu tinha tirado aquilo, não me olhou como se eu fosse louca. "Ele tem muitas faces. Pode ser libertador".

Admirei nossas mãos, atentamente. Minha pele parecia muito branca em contraste à dele, que era avermelhada, marcada pelo sol. Tinha a impressão de que se me concentrasse demais na presença dele, ou na minha, aquele momento se esvairia rapidamente. E nós deixaríamos de existir.

"Estou livre da carência e do medo de ser consumida pela carência" repliquei, ácida. Talvez ele não soubesse do que tratava-se aquela conversa. Talvez fizesse todo o sentido. Talvez esse fosse o perigo. "Mas a carência é medo de mim mesma. Então, em troca do amor, abro mão de mim".

Senti a ondulação de seu corpo quando ele suspirou e me permiti olhá-lo, finalmente. Descansava as mãos em cima da cabeça, formando um losango com os braços - uma posição muito peculiar masculina. Parecia relaxado, não fosse pelo olhar preocupado que lançava em minha direção. Será que tentaria me salvar de meu estado descrente e acabado com alguma resposta cheia de fé no amor?

"É, acho que é verdade" não pude deixar de parecer surpresa. Concordar com o outro nunca fora nossa atividade preferida. Mas é claro que não acabava ali. "Abrimos mão de nós mesmos. E a outra pessoa faz o mesmo. E, no fim, é uma troca. Vale a pena, não é?".

Nossos olhares se encontraram e permaneceram trancados no outro por um momento ou mais. Naquele instante, ele sabia. E eu também. Abri um sorriso derrotado, de quem perde um debate justo.

Ajeitei novamente minha cabeça em suas pernas, o gramado proporcionando uma posição confortável para meu corpo. As costas dele estavam apoiadas no tronco de uma árvore, uma de muitas ao nosso redor. Nossos amigos, felizes, agiam como crianças há alguns metros dali - entre eles, a garota que fazia com que ele acreditasse em tudo aquilo. A mesma que fazia com que eu não acreditasse.




segunda-feira, 12 de março de 2012

Sobre emoções emprestadas

Ilustração de Jenny Yu | Ler ouvindo No Light No Light, Florence + The Machine



Vem, senta aqui. Divide sua paixão comigo. Me dá um pouco da sua dor, da sua cólera e do seu pavor. Tem lugar para tudo em mim.

Não tem segredo: a gente só senta e vê tudo queimar, a fumaça subir e a noite rolar. A gente se enrola.

Eu levo sua lamentação nos ombros. Passo as lágrimas por um cordão de dúvidas e penduro no pescoço. Estamos atadas pela nossa escuridão. Estamos atadas.

A noite termina e a gente foge para um lugar que não tenha luz. Vamos viver fugindo do medo, com medo do que ele pode dizer. Eu te acompanho aonde você quiser.

Porque eu e você já não temos salvação. Gastamos nosso crédito em promoção. Vamos viver de idealização. E morrer atadas. Estamos atadas à escuridão.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Sobre aquela que odiava o amor

AVISOS
1. Esse post, em particular, não é apropriado para menores de 18 anos.
2. Sou nova na arte de descrever atos sexuais, então talvez tenha falado alguma coisa idiota XD 

Foto: Junior Colferai / Ler ouvindo Snuff, Slipknot


"Existe a necessidade absoluta de se sentir desejado e neste círculo do desejo é muito raro que dois desejos se encontrem e se correspondam. O que é uma das grandes tragédias do ser humano" Pedro Almodovar



Acho que nunca percebi o quanto era problemática. Pensava mais nisso como "uma vontade de discordar". Lembro que, quando você me encontrou, eu estava bebendo Coca-Cola zero no bar. Pensei em pedir um copo de leite, mas seria extremo demais, e eu nem gostava de leite. Fiquei com a minha Coca.

Você achou divertido me ver sentada lá, com o canudo e açúcar, meu caderno aberto no balcão, um lápis 6B e pouca inspiração. Achou tão divertido, que se sentou ao meu lado.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Dos diálogos que não acontecem




Querida diário,

Hoje choveu o dia todo. Aquela chuvinha gelada, fininha e cinza. O céu parecia feito de pó de ferro. Eu olhei para a serra, como sempre, e só consegui enxergar metade do caminho.

Peguei o suéter de lã preta do fundo do armário. Aquele comprido demais, que faz eu me sentir enrolada em um monte de cobertas. Também faz eu me lembrar de casa. Da segurança das paredes do meu quarto. Do meu pai a um grito de distância. Da minha mãe fazendo chazinhos de fruta e minha irmã pedindo abraços. Faz eu me sentir sozinha.

Mas combina com o tempo. Com as poucas pessoas que passam pela avenida com seus guarda-chuvas. Com as poças de água gigantes que se formaram na frente da porta. Pisei em várias delas, aliás.

É tudo tão ameno que eu quase me sinto envergonhada por não ser, também, amena. Por deixar que os discursos formem-se na minha cabeça com tanto fervor. Que os arrependimentos exalem de minha pele como um perfume recém borrifado. E me calo.

Quando ela me diz que é como eu, me limito à sorrir. Não levanto a voz, tão pouco despejo minhas palavras sobre sua mente fragilizada. Não lanço-lhe nenhum alerta. Deixo que ela prove e descubra por si só.

Podia salvá-la, podia ampará-la. Mas me desloco de mim mesma, e aproximo-me da suavidade. É suavidade, afinal de contas, que faz de uma pessoa agradável.

O outro lado do meu cérebro, o que veste preto todo dia, e que vive em chamas, sem ligar ou pensar em amenidades, grita algumas palavras indelicadas. Ele cria um diálogo em minha cabeça. E nesse diálogo, eu seria objetiva e deselegante.

- Eu não levo em conta o que sinto ou desejo. O importante é que ela decida por si só.

- Eu já fui assim, como você. Já considerei uma pessoa mais importante que eu mesma, já coloquei as necessidades dela na frente das minhas. Calei minhas palavras quando achei que fosse feri-la. Aceitei suas insinuações, interjeições e declarações sem ligar para o fato de que, a cada cutucão, abria-me uma cicatriz, e criavam-se novas feridas.

- E o que aconteceu?

- Deixei de amá-la. Eventualmente, aquilo que nos machuca desperta um tipo de ódio dos mais primais.