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domingo, 24 de maio de 2015
about louie
she smiles. it's the best "hi" you are going to get. it isn't a bright smile, though. it is full of bitter, disbelief, and for some reason guilt. she is smiling like someone would say goodbye or i'm sorry.
she is just standing there. of course she was waiting for you... she's got that big sister thing that makes the others spill their guts. they must have told her you were on your way.
she doesn't move or gesture in anyway. you feel like you're staring into an animal eyes - they're careful, angry, hurt and so scared. so scary.
you take a look around. the stone room has a yellow light coming from somewhere, but it doesn't make it any less dark.
- i lit it. so you could see. but you won't find any candles - her voice is surprisingly high-pitched, yet harsh and dragged. you know why. you know it's 'cause it's hard to talk, not to stutter, not to overflood the room with her insides, not to fear judgment.
you nod. she is hugging a book in her arms, a little too tight. it's an old, leather covered, big book. the girl, on the other hand, is short. shorter than you'd think, knowing how much power she has coming out of her pores.
her hair is very black, long and straight, with bangs that give her a younger look. her hair is messy, though, you'd bet she spent the night awake and didn't bother combing before leaving in the morning.
her skin is the kind of white that makes you worried. and you can spot purple bruises on her wrists and collar bone... were they self inflicted?
- i have a few questions - you say in a low voice. the situation is weird and intimidating... knowing yourself, after all, was no easy trick - they might bother you, but i'd like you to make an effort...
- fine - she is rude. and you hold a little laughter. of course she is rude, you think, she wants to sound as wild as she feels.
- well... have a sit - and at that moment a table and two chairs appear between you two. and immediately you regret it... you know that table, you both do. it's the one where all the others locked her in when she became too dangerous for herself.
she backs away, the look in her face makes you wonder if she is about to attack you or run away. but she stands still, rubbing her wrists... the place where the cuffs digged into her skin.
- i think i'd rather stand.
- why don't we.. ? - you gesture to the other side of the room. you both sit across from each other, on the floor. - the first question i got for you is related to responsibility.
she crosses her legs and lay the book there. the school uniform is dark blue and white, and you wonder if she's worried about getting it dirty.
- why do you entitle yourself the big sister?
she rolls her eyes. you raise an eyebrow. she is a real teen.
- i don't entitle myself anything. they do. i just do what i have to do.
- and what is that? what do you have to do?
everything is silent for a sec. you almost think she won't asnwer. but then you see it... she's trying.
- i have to make sure they are ok.
- why? ok from what?
- ... because that's the way i know how to keep who i care about close. and probably from myself... because i manage to ruin everything, anyway.
- that does not make sense.
- doesn't it? i am so messed up that anyone close to me just gets infected... and gets in danger. and hurt.
- so why do you keep them around? if you care about them?
she looks at you with such pain in her eyes that you regret saying it. you regret every word. it starts hurting you too.
- because i can't stand it alone - her voice cracks at the end. she really is trying.
- why do you think you are so messed up?
she took a second. you're sure she thought about this before, but for some reason explaining was... hard.
- ... you have to ask?
- yes i do. i really do.
- why? 'cause you think you got to build yourself up again and there is some part of me that belongs to you? well guess what? i am nothing good or savable. so you can just leave me alone and be done with it.
- ... louie, please.
she closes her eyes for a second. and breathes. when she comes back, it's cold and focused, like she was finding strength from speaking without any attachment.
- i am the one who can't live a normal life. i screamed my way through sleep my entire childhood. and then i grew up and it didn't got better... they say it's gonna get easier, that life changes and everything changes along. and you know what? the feeling is still the same... i am still that kid with ghosts in her room making her see things. and no one comes to send them away when i scream.
- why don't you send them away yourself, louie?
the question did two things: both pissed her off and made her wonder.
- is that what you do nowdays? you send them away yourself? - it was an honest question.
- the ones i don't want to talk to, yes. the ones i do, i listen to. i can teach you how.
you can hear her heart from across her chest, clothes and the space that separated you two. but you knew what came next.
- no. fear is all i have to keep going.
you nod. you can't say you're not disappointed. neither that you are surprised.
- one last question... why is it that you think you can't do it alone, in life? why do you need people to need you?
she smiled again. that same sorrowful smile. but this time with a bit of fun.
- i don't want my life to be just hate. and i hate myself.
you look at her face and you are sure you're looking at a stranger's face. it's you, but missing parts.
- it's gonna get better, louie.
and you both laugh. what a crappy promise.
segunda-feira, 8 de dezembro de 2014
sobre o guardião invisível
Ler ouvindo: Yellow Flicker Beat, Lorde.
Ele me falou sobre o bem e o mal, e sobre as criaturas que destroem sem nunca criar.
Naquela noite, o céu ficou quieto e escutou enquanto eu descobria coisas que não sabia. Enquanto as articulações do meu cérebro faziam ligações perigosas e impossíveis. Enquanto eu balanceava o peso da culpa e a leveza da absolvição.
Talvez o silêncio fosse o prelúdio de algo. Uma porta antiga abrindo e revelando um caminho que eu nunca ousei explorar.
Olho por através dela e vejo um corredor cheio de portas. Sei que há passarinhos soltos em salas imensas onde o sol bate sem precisar de nenhuma fresta e que o vento sopra livre, sem esperar permissão.
Sei que há salas vazias, entupidas de solição, criaturas que habitam o escuro, esperando pelo nome e forma que os trazem para a luz.
Sei que há sonhos. Estilhaços de mensagens que se juntam para formar um espelho, um riacho, um reflexo daquilo que ainda não habita a minha consciênca, mas quase.
Mas não passo pela porta hoje.
Hoje eu penso sobre o bem e o mal, sobre criaturas que destroem sem nunca criar. Sobre o meu amuleto quebrado no chão.
Sobre a morte de um guardião invisível. E a culpa de não falar sobre isso.
quinta-feira, 23 de janeiro de 2014
Sobre as primeiras vezes
![]() |
| foto de Rachel Dowda |
Ler ouvindo: Counting Stars, OneRepublic
“Você percebe que você meio que
recriou a sua primeira vez com ele?”
Eu olhei fixamente para ela, não sei
se meus olhos diziam que sim ou que não. Não sei se eu pensava que sim ou que
não. Só sei que eu já tinha pensado em algo similar. Tinha pensado em esquecer
a primeira vez, em considerar ele o meu primeiro.
Não porque a primeira vez tivesse
sido tão traumática e paralizante. Por mais que ela me diga que eu precise
entender quando for invadida, eu ainda acho que ganhei o que busquei. Eu
busquei um idiota que leva uma garota para o motel sem saber o nome dela. E
que, depois que ela confessa ser virgem, termina o trabalho mesmo assim. Sem
cuidado, sem carinho, sem vontade.
E o ato todo se finaliza numa grande
chupada no chuveiro.
Parte de mim chora pela falta dos
“primeiros”. O primeiro beijo apaixonante. Um com significado e afeto. Um que
não seja produto de puxada de cabelo na balada.
Quase eu inteira queria uma primeira
vez, se não perfeita, imperfeitamente poética. Por isso pensei em considerá-lo
meu primeiro. Ele foi, em todos os sentidos, imperfeitamente poético, do jeito
que eu gosto. Do jeito que eu preciso.
Mas eu penso por um segundo em
cicatrizes. Aquelas finas e claras, que a gente só vê quando para e presta
atenção. Uma redonda, na parte de dentro do meu braço, que me lembra das coisas
que eu perdi. Duas no meu rosto, que me lembram de não coçar a catapora. Uma no
meu pulso, que me lembra de não ignorar a dor. Uma no joelho esquerdo, que me
lembra de não ter pressa. E a primeira vez, que me lembra de não me deixar
invadir.
Tem uma amiga minha que odeia a
cicatriz dela, uma bem na mão, uma marca de queimadura. Eu digo para ela que é
parte da história dela. Digo que é linda, que é significativa e que não pode
ser escondida por uma pomada qualquer que faz a pele cicatrizar. Não, porque
você viveu aquele machucado e você sentiu aquilo. Eu vivi a minha ridícula
primeira vez e eu me submeti àquela experiência. Eu tinha medo e eu agi com
medo. Medo de nunca experienciar o que era ser desejada, medo de nunca conhecer
o toque de um homem. Medos.
E eu odeio agir com medo. Se tem uma
coisa que me orgulho agora é da minha coragem. É de não ser paralizada por
nada. É de ter reunido todos as minhas fibras de força e ter sido sincera.
Por isso, uso minha pequena cicatriz
da primeira vez como uma tatuagem. Com ela, eu não tenho um caso de amor, como
tenho com meu lobo, com meu sigil e com meu “like crazy”. Ela é o meu aviso.
Ela me mostra que uma simples dose de respeito faz toda a diferença.
Respeito. Eu demorei pra pensar nessa
palavra.
Demorei?
Demorei exatos três minutos olhando
para ele para me decidir. Peguei sua mão e puxei-o para o corredor. Não sabia
se ele tinha medo, vergonha, falta de vontade ou simplesmente se precisava de
privacidade. Só sabia que no corredor as coisas seriam simples, fáceis, claras.
E elas foram.
Eu lembro de detalhes. De todos os
detalhes. Lembro do sorriso dele, como quem diz “Ok, estou sem graça” e de sua
rendição, abrindo os braços e me beijando de um jeito que eu só consigo definir
com “com o corpo todo”.
Ele beija com o corpo todo. E era o
nosso primeiro beijo.
Meu primeiro algo, veja bem.
Lembro da porta fechando, dos olhares
perdidos e dele percebendo meu nervosismo. Do “relaaaxa” dele, que ele diz pra
quase tudo, até hoje. Lembro dele tomando o controle.
Eu sempre achei que não gostasse de
sexo oral. Eu nunca tinha tentado. Nunca tinham tentado em mim, pelo menos.
Talvez por eu ser tão consciente com o meu próprio corpo, talvez por eu
detestar tanto as minhas formas. Mas ele não pediu permissão, ele não perguntou
se eu queria. Ele também não me invadiu. Ele apenas... Me descobriu.
Outra primeira vez.
Me pego pensando naquele dia 13 e
vejo várias primeiras vezes. Várias “matações de vontade”, vários momentos que
foram para mim, ele sabendo disso ou não. Ele entendendo isso ou não.
Por isso, quando ela me diz que eu
recriei a primeira vez, entendo o que quer dizer. E considero. E penso, penso,
penso. Como se de um pensamento algo como uma conclusão útil e bem formulada
pudesse sair e resolver todos os meus maus entendidos.
Mas retruco, tardiamente, aqui,
deitada na mesma cama em que tudo aconteceu, lembrando das mãos deliciosamente
grandes dele na minha pele e do beijo de corpo todo dele, que eu não refiz
nada. O que eu fiz foi começar a porra do capítulo 2.
E que das segundas vezes... Bem,
delas eu tenho um puta de um orgulho.
quinta-feira, 15 de agosto de 2013
Sobre o sol
![]() |
| By Helen Worrall |
[para ler ouvindo Nigh Vision, Imagine Dragons]
27 de setembro, 2015
Se você está lendo esta carta, é porque eu estou morta.
Ok, desculpe. Eu sempre quis dizer isso.
Para falar a verdade, estou contando com a possibilidade de eu ainda estar viva. Talvez, se tudo sair como planejado, eu ainda tenha alguma chance de salvar a mim mesma, e àquilo que mais importa. E, para isso, você precisa me ajudar - seja lá quem você é.
Não sei como estão as coisas aí desse lado, mas por aqui não estão nada normais. Ou favoráveis. Desde a última troca, que aconteceu há cerca de um mês, não há mais nenhum tipo de meio de comunicação funcionando. Nenhum dos Gs, nem banda larga, nem dial-up (sim, eu tentei), nem rádio, nem fibra óptica, nem telefone, nem televisão, nem rádio, nem nada. Me sinto numa ilha deserta.
As pessoas começaram a deixar suas casas depois da primeira ou segunda troca. As coisas ficaram muito feias, muito depressa. Não deu tempo de planejar muito. A maioria delas se agrupou em shoppings e supermercados. Qualquer um com mínima instrução na cultura pop sabe que esse tipo de coisa é burrice, mas acho que, quando está acontecendo de verdade e você sente o perigo, a lógica fica um pouco falha.
Ouvi boatos de um novo governo sendo formado. Uma ordem surgida do caos, que obviamente utilizaria da violência para funcionar. Fiquei o mais longe possível deles.
Não só deles, na verdade. Fiquei longe de tudo. Não confiei em ninguém o bastante para pedir ajuda. Ou para ajudar. Mas a cada dia que passa eu tenho mais certeza de que essa é uma missão para quatro mãos.
Eu devia ter começado explicando quem eu sou e do que raios eu estou falando. Bom, lá vai. Meu nome é Holly Hartwell. Meu pai foi Tony Hartwell. Você já deve ter ouvido falar dele. Há um ano, quando o sol ainda não tinha passado pela primeira troca, ele era considerado pela mídia o "profeta do apocalipse".
Eu discordo desse apelido, principalmente porque ele nunca tentou evangelizar ninguém sobre o assunto. Ele simplesmente trabalhou, e trabalhou muito, para que a humanidade não se matasse quando a última troca chegasse.
E estamos muito perto dela agora, eu devo dizer.
Ele chamou a primeira troca de "agouro". Você deve ter conhecido ela como a "madrugada sem fim". Foi a época em que passamos sete dias e sete noites sob a luz fria do fim da madrugada.
Na segunda troca nós perdemos esse brilho. Ele chamou essa época de "prelúdio". Era noite, mas era uma noite clara. Eu via a lua e a eletricidade ainda funcionava. O mundo estava assustado e já começava a sofrer com a falta de preparação humana, mas ainda havia esperança.
Foi aí que ele morreu. Eu não sei como aconteceu, onde ou porque. Tudo o que eu sei é que o cachorro dele, o Butch, nunca teria voltado se ele ainda estivesse vivo.
Eu estava preparada para isso. Ele havia me instruído sobre o que fazer. Parti com Butch para bunker de meu pai, onde ele guardava o fruto da pesquisa.
A terceira troca aconteceu logo depois da minha chegada. A eletricidade havia acabado. Vivemos por muito tempo só com a luz da lua. E tenho certeza que muitas pessoas acharam que esse era o fim da transformação. Que estávamos a salvo, finalmente. Nunca descobri como meu pai teria chamado essa troca, mas eu a apelidei de "silêncio". Era o silêncio antes da tempestade, afinal de contas.
E era mesmo. Quando a lua apagou, até mesmo eu não soube o que fazer. Viver de fogo era pouco prático e muito perigoso. E as baterias não durariam para sempre.
Então me apressei. Terminei de montar a arma, empacotei o que consegui e parti para onde estou agora.
O nariz de Butch tem me guiado fielmente até aqui, mas suas patas caninas não tem a energia que preciso para acionar a arma. E é por isso que preciso de você.
Estou enviando essa carta por Honey, meu corvo. Ele vai te achar, independentemente de onde você estiver, e vai esperar para te guiar de volta até mim.
Daqui a alguns dias, quando a última troca acontecer, vamos estar completamente no breu. Qualquer tipo de energia deixará de existir e vamos todos - animais e plantas - morrer.
E você pode me ajudar a mudar tudo isso.
Meu pai costumava dizer que, para cada criatura colocada na face da terra, há um propósito. E que, ao contrário do que parece, o ser humano não está aqui para acabar com ela. Ele acreditava que uma das coisas mais incríveis de se observar sobre nós é a energia. A forma como emanamos nossos próprios sentimentos. Nossos pensamentos. E como nossas reações se transformam em coisas físicas.
Por isso algumas pessoas eram capazes de apagar postes de energia durante um rompante de raiva. Capazes de fazer um ambiente parecer mais denso ou mais leve. De fazer as pessoas sorrirem, mesmo que contra suas vontades.
É dessa energia que eu preciso.
Despeço-me aqui, torcendo para que você siga Honey e me encontre. E que, quando dermos as mãos, nossas energias, juntas, sejam capazes de ativar a arma que salvará o planeta.
Holly.
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quarta-feira, 26 de junho de 2013
Sobre a última aventura de férias
| do filme "Conta Comigo" - um dos meus preferidos |
Ler ouvindo a trilha sonora de "Conta Comigo".
Para explicar os acontecimentos daquela tarde de férias, uma das minhas últimas férias da escola, aliás, é preciso relembrar do começo. Tudo começou como "tudo" geralmente começa: com uma história. Minha avó era cheia de histórias naquela época.
Eram os idos de 1995, e o tipo de tecnologia que eu tinha disponível na minha vida não era o bastante para me entreter, como hoje. Uma das minhas coisas preferidas no mundo era ouvir histórias, fossem elas verdadeiras ou lidas de livros. As da minha vó eram sempre verdadeiras. Ou pelo menos era o que ela dizia.
Ela passara a maior parte de sua juventude morando em um sítio, no interior da cidade de Suzano. Suzano, no caso, não era a cidade cinza e esfumaçada que é hoje. Antigamente, ela era verde, com estradas de terra, e cheia de mistérios. Ela chamava o lugar de "sertãozinho".
Lá no sertãozinho, muitas coisas eram normais. Coisas que, para qualquer outra pessoa, faziam parte de filmes e livros de suspense e terror apenas. Temer alma penada, por exemplo, era sinal de esperteza. Essa história de que as pessoas vivas são as únicas que podem te machucar só apareceu muito depois, quando todo mundo passou a saber o nome de todo mundo, e mais nada de relevante.
No caso da minha avó, o medo era do Saci. Ela dizia que as lendas eram outras e o costume, na sua época, era deixar oferendas para os santos. De vez em quando, uma ou outra entidade arteira pegava essa oferenda, e aí era uma confusão só. O Saci, em especial, era louquinho pelo café que ela deixava para São Benedito.
Pois bem, em 1995 ou algo parecido, eu era pequena o bastante para deixar a minha curiosidade me guiar, e grande demais para acreditar em tudo. Mas se sua vó diz que é verdade, você acredita. Pelo menos eu acreditava.
E nas tardes que passava com ela aprendia sobre esse tal de Saci, que não era necessariamente um moleque de uma perna só, mas um ser poderoso que poderia trazer muita desgraça se ficasse nervoso. Também aprendi sobre a mula-sem-cabeça, o boto cor-de-rosa, sobre maldições jogadas em famílias inteiras, sobre o significado de sonhos e a utilidade das ervas para curar doenças ou livrar a casa de más energias.
Dez anos depois, minha avó já não dava mais café para o São Benedito. Minha tia se convertera à igreja evangélica e não permitia mais a imagem de santos - ou de nossa senhora - dentro de casa. Minha mãe insistia em me dizer que alma penada não existia.
Mas eu, também, era de outra época. E me recursava a sair daquele mundo em que tudo, ou quase tudo, era possível. Foi assim que virei o que as pessoas chamam de "criança grande".
Acho que já era 2006. As últimas férias escolares livres, sem pensar em vestibular ou trabalho. E eu e mais dois amigos, tão famintos por aventura e fantasia quanto eu, resolvemos sair em uma exploração.
E foi aí que tudo aconteceu.
A gente não planejou direito, devo dizer. Era uma tarde de verão típica. O que, por si só, já devia ter sido informação o bastante para nos avisar que: 1) a estrada estaria MUITO quente e 2) um toró sem igual podia cair a qualquer momento.
Enchemos a mochila de coisas para comer e beber e seguimos pela linha do trem, que era desativada a partir de César de Souza. Ou era o que pensávamos.
O caminho, por si só, já era difícil o bastante. Caminhar entre as tábuas desiguais da linha exigia concentração e certa coordenação motora. Além disso, nós três usávamos tênis All Star e podíamos sentir a temperatura e forma exatas do chão através da sola.
Os primeiros metros correram rapidamente, embalado por conversas. Nós não éramos qualquer tipo de amigos - éramos um trio. Um trio preparado, principalmente, para entrar em encrencas e se meter em furadas.
Antes que as árvores pudessem acabar, a trilha ladeou o que parecia uma pequena vila de casas. O lugar não era particularmente povoado, mas não era deserto. Um garoto surgiu do nada - era pequeno e tinha a pele avermelhada pelo sol. Suas roupas estavam sujas, como a de uma criança muito arteira, que passa o dia todo na rua, brincando. Ele estava descalço.
Era o único por ali. Pelo menos era a história que o silêncio nos contava. Ele nos encarava sem rodeios.
Por algum motivo, apertamos o passo. O olhar que o garoto nos lançava não era amigável. Era desconfiado, gelado e atento, como se guardasse o território.
Olhei para um dos meus amigos, o que tinha mais facilidade em sentir as energias de um lugar ou uma pessoa. Acho que ele sentia o mesmo que eu.
E a sensação era a de ter entrado no set de gravação do filme "O Albergue". Eu podia sentir o cheiro de sangue. Ou talvez fosse de terra vermelha. E eu podia sentir o cheiro de carne podre. Ou talvez algum bicho tivesse caído morto ali perto. Eu também sentia uma energia gelada, que é característica de locais onde coisas ou seres morrem. Não havia alternativa para aquela sensação.
Ultrapassamos o limite da vila e prosseguimos, agora expostos ao calor direto do sol, deixando as sombras das árvores para trás, junto com o garoto que ainda olhava em nossa direção.
Naquele ponto, o trilho do trem tomava altitude. Estávamos no topo de um morro escorregadio e seco, sem trilhas de descida à vista. Aquilo não teria sido um problema, não fosse pelos raios que começavam a quebrar bem próximos àquele ponto.
Estávamos quase correndo. Já não falávamos mais. Percebíamos que aquilo era uma bela de uma má ideia, mas já havíamos avançado demais para dar meia volta. A cachoeira, nosso destino, devia estar perto. Bem perto.
Foi então que as primeiras gotas caíram. Não eram gotas finas, daquelas que avisam sobre o começo da chuva. Era um temporal inteiro. Corremos mais, sem a menor ideia do que deveríamos fazer.
Já estávamos completamente encharcados quando um dos meus amigos avistou um buraco seco, grande o bastante para caber nós três. Entramos sem a menor hesitação, deixando que nossas roupas encharcadas nos jogassem no chão.
Recuperei o fôlego e tirei o cabelo molhado de frente do rosto. Já era a terceira hora de caminhada e não seria inteligente voltar. Deveríamos ficar ali até a chuva passar, depois retomar a caminhada. Em meia hora, no máximo, chegaríamos até Sabaúna. E então seria apenas cinco minutos até a cachoeira.
Esse plano, obviamente, não deu certo. Porque nesse mesmo segundo ouvimos um barulho estranho, vindo do fundo do buraco.
Naquele instante, me senti ligeiramente burra por não ter percebido que aquilo não era um buraco qualquer, desabitado. Era uma toca. A casa de alguém. Ou melhor, de alguéns.
Uma criatura enorme nos encarava, protegendo outras criaturas menores, suas miniaturas. Seus filhotes.
Ao que tudo indicava aquilo era um javali. O que era absolutamente impossível, já que não haviam javalis ali, naquela cidade.
O javali-mãe urrou quando viu que finalmente percebíamos sua presença. Não era um urro amigável. Era assustador e mandava uma mensagem muito clara: vou comer a cabeça de vocês se não derem o fora daqui e deixarem meus filhotes em paz.
E foi bem o que fizemos. Acho que nunca corri tanto na minha vida. Ou gritei. Quando paramos, vários mil metros à frente, senti gosto de sangue na garganta.
A chuva, pelo menos, começava a passar, e já nos deixava caminhar sem morrer afogados.
Tomamos esse desafogo como um presságio de que a sorte estava mudando. Finalmente uma trilha bem demarcada surgia no morro. Poderíamos chegar à estrada e nos proteger do sol e da chuva, embaixo das copas das árvores.
Eu fui a primeira a pisar na trilha. Tive cuidado, pois o chão, além de molhado, também era coberto de musgo. Eu não tive a chance de escorregar.
Logo à minha frente, várias cobras se entrelaçavam, cobrindo a trilha.
Brequei imediatamente, abrindo os braços para deter meus amigos, que vinham logo atrás de mim. O movimento deve ter sido muito abrupto, pois ambos colidiram às minhas costas, me jogando direto para as cobras.
Caí com uma das mãos em cima da cabeça de uma particularmente grande. Era verde, e eu tinha certeza de que ela me mataria naquele mesmo instante.
Nenhum dos dois antas tentou me ajudar. Fiquei estirada naquela posição por alguns segundos, até perceber que estava sozinha ali. Meus amigos estavam de volta à linha do trem, gritando para que eu fizesse o mesmo.
E eu fiz. Mais uma vez, acho que quebrei algum tipo de recorde pessoal de corrida. Dessa vez, sem gritar.
Guardei os berros para os dois. Discutíamos alto, sobre como àquilo era culpa do outro. Também gargalhávamos alto. Tão alto que fazia meu peito doer. O nome daquilo era histeria.
Continuamos pelo trilho, sem qualquer outra opção, e também sem vontade nenhuma de voltar e lidar com os pequenos problemas que havíamos deixado para trás.
E então voltamos ao chão. O trilho desceu direto para uma estrada e nós não pensamos duas vezes. Corremos, felizes, e se me lembro bem, um deles deitou no chão e rolou, feliz de ver e sentir o asfalto novamente.
Foi aí que um carro branco passou por nós. Passou bem devagar, para que pudéssemos ver quem estava dentro. No banco de trás, o mesmo menino que nos observava na vila, aparecia pela frente da janela. Não conseguíamos ver quem dirigia. Ou quem mais estava no carro.
Paramos no meio da rua, enquanto o carro seguia e brecava há alguns metros de distância. Guardei meu grito, mas fui a única.
O carro fez uma curva rápida e voltou em nossa direção. Mas passou reto. Antes que pudéssemos nos sentir a salvo, porém, ele brecou novamente, e fez o mesmo percurso que antes. Quem é que fosse lá dentro, queria que nos sentíssemos encurralados.
E conseguiu.
Antes de entender o que estava acontecendo, antes mesmo de processar qualquer tipo de terror que pudesse nos paralisar, simplesmente corremos. De volta à trilha. De volta ao maldito trilho de trem.
O trilho subiu por metros e metros e metros. Estávamos mais ao alto que nunca. E a trilha que deixávamos para trás era, basicamente, a única que parecia existir por ali.
O fim da tarde começava a manchar o céu de colorido e o sol e o calor já não incomodavam mais. Mas estávamos tão cansados, irritados e assustados - além das roupas molhadas de chuva e suor - que aquilo não pareceu uma melhora. Queríamos voltar ao chão, um lugar para sentar, uma carona de volta para casa. E talvez uma semana só para esquecer o que tinha acontecido.
Como se fosse algum tipo de resposta divina, os trilhos começaram a descer. Já podíamos ver o ponto em que ele nivelava-se com a estrada de terra. E comemoramos.
Cedo demais.
Um barulho distante chamou nossa atenção. Era um chiado. Batidas. Coisas rolando. Não foi até que o chão começou a tremer que entendemos do que se tratava... Tinha um trem vindo.
Não havia para onde correr, a não ser para frente. Para o tal do nivelamento. Para a estrada. E ela estava tão longe. E corremos, como se não houvesse amanhã. O que poderia mesmo não haver, caso não corrêssemos rápido o bastante.
Alcançamos a estrada por um triz, o que parecia ser o "último segundo". E caímos no chão, observando o trem de carga passar por nós zombeteiramente, sem fôlego e energia.
Foi lá do chão que vimos a placa. Estávamos a exatos dois mil metros da entrada de Sabaúna. Tão perto que um pouco da motivação voltou para nossas veias. Estávamos quase lá. Quase na cachoeira.
De dentro de uma das mochilas surgiu uma câmera fotográfica, daquelas quadradas e de qualidade duvidosa. Eu, com minhas pretensões de diretora, tomei a iniciativa e comecei a documentação do nosso fim de jornada.
Coloquei no modo vídeo e apontei a lente para os dois. Um de cada vez contou a sua versão de como as coisas tinham acontecido.
Inevitavelmente, tudo acabou em piada - verdadeiras “found footages” de ataques do pé grande.
Nos distraímos tanto que esquecemos de tudo, inclusive de olhar pelo caminho. Esse, podemos dizer assim, era nosso erro recorrente.
Entre uma gargalhada e outra ouvimos os latidos. E, imediatamente, uma mistura de pânico e conformismo se formou no ar. Ninguém me mexeu - tudo indicava que, se houvessem cães raivosos naquela área, haveria também uma cerca para separá-los dos "passantes desavisados".
Não havia.
E, pela centésima vez naquele dia, pus-me a correr abestadamente. Não conseguia ver quantos cães eram, ou seus tamanhos, ou mesmo imaginar que, talvez, se parássemos de correr, eles parariam de nos perseguir.
Continuamos correndo mesmo quando os latidos desapareceram. Continuamos correndo mesmo quando chegamos ao que imaginávamos ser a entrada de Sabaúna. Continuamos correndo até que alcançamos a civilização.
Nos espalhamos em um banco de ponto de ônibus, com nada além da certeza de que o que acontecera naquele dia nunca seria levado a sério por ninguém além de nós três.
Paramos algumas pessoas que passavam por ali, para saber há quantos minutos estávamos da cachoeira. Cerca de cinco minutos. Coisa rápida. Quase imediata. Só precisávamos continuar seguindo.
Olhamos uns para os outros e, naquele silêncio sem argumentos, tomamos uma das mais estranhas decisões.
Pegamos o primeiro ônibus de volta para casa, deixando para trás a trilha, os perigos e a cachoeira. Mas carregando nas mochilas e na cabeça a curiosidade de descobrir o que é que nos esperava no fim do caminho.
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terça-feira, 11 de setembro de 2012
Sobre o karma
Por: Renée
A sala estava aparentemente vazia. Um silêncio opressivo imperava, o barulho de meu próprio passo cardíaco e respiração faziam-se presentes. Era tudo muito escuro, empoeirado e desconhecido.
O cômodo era longo e retangular. Em uma das extremidades, bem no centro da parede amarelada, uma pequena escada-caracol subia timidamente do chão de pedra - ela, também, era feita de pedra - e terminava poucos degraus depois, em um patamar e, finalmente, em uma porta. A única porta visível naquele lugar. Ela parecia trancada.
O local era preenchido por prateleiras de madeira escura, baixas e abarrotadas de livros e outras coisas que eu não ousaria adivinhar o que, de fato, eram. Havia apenas uma janela desobstruída - a luz do pôr-do-sol vazava pelo vidro riscado, pintando a superfície dos móveis e dos objetos de dourado. Um dourado quente, reconfortante e distrativo.
Eu estava no fundo. Sentada em uma das carteiras antigas que formavam duas longas fileiras pela sala. Passei o dedo pelo coração cravado no tampo da mesa de madeira. As letras "J" e "V" marcadas dentro da figura.
Para falar a verdade, eu não fazia ideia do que estava fazendo ali. Ou de como havia chegado. Mas não estava alarmada. Pelo menos ainda não.
Noto o fundo espelhado da prateleira à minha esquerda e logo vejo olhos grandes, escuros e redondos me encarando. Meus cabelos caem soltos pelos ombros, em cachos grandes e não uniformes. O que raios estou vestindo?
Me desvencilho da carteira, tropeçando no tecido preto e grosso que me envolve. Não tenho tempo de contemplar a peça, ou entender do que se trata. Imediatamente, sei que estou sendo observada - a sensação de ter olhos grudados à suas costas é inconfundível. Meu corpo gira no lugar sem considerar o que poderia encontrar do outro lado.
É uma mulher. Ela está em pé, parada há vários metros de distância. É alta, muito magra e branca, tem cabelos loiros. Por um segundo, penso em dizer "oi". Mas então vejo sua expressão...
Não sei bem como descrever a expressão. Palavras como "maliciosa", "desagradável" e "assustadora" passam pela minha cabeça, mas elas não são boas o bastante, não alcançam o tipo de emoção que aquele rosto transmite. Seus lábios se contorcem numa espécie de sorriso, e então se abrem num formato oval, um "O" quase perfeito.
Posso ouvir o som de sua voz, muito embora aquilo, de forma alguma, possa ser chamado de voz. É um gemido estralado e arrastado. Um assovio engasgado muito característico de pessoas que sofrem de asma. Mas é claro que isso não tem nada a ver com asma. O som se espalha e se arrasta pelo cômodo, atingindo as paredes e voltando como eco. É tão alto que eu penso em me abaixar e, quem sabe, ficar em posição fetal até tudo isso acabar.
Ao invés disso, eu só dou um passo para trás, alerta.
Obviamente, eu tenho algumas dúvidas vitais - onde eu estou? O que eu estou fazendo aqui? Quem é essa pessoa? O que é esse som que ela está produzindo? Porque ela fica me olhando dessa forma? Naturalmente, nenhuma delas é propriamente respondida.
Como se eu tivesse perdido vários minutos da minha vida sem perceber, a mulher está muito próxima a mim. Tão próxima, em tão pouco tempo, que eu dou um pulo involuntário para trás e me choco contra outra carteira. Escorrego e arrasto o objeto comigo para o chão quando caio.
A mulher abaixa o torço em minha direção e eu posso ver seu rosto de perto. Não há mais globos oculares - ou talvez nunca tenha havido. Lá de dentro, vagarosamente, começa a escorrer um líquido preto e gosmento. O cheiro é forte - como graxa e também algo azedo. O mesmo líquido passa a escorrer dos ouvidos dela e da boca. Algumas gotas escorrem pelo nariz.
Seguro a cadeira com todas as forças e a jogo contra a mulher. Não estou mais pensando. Apenas agindo.
A cadeira colide certeiramente contra a cabeça dela. E, por um segundo, acho que não fez efeito nenhum. Mas logo ela está no chão. Os braços abertos ao lado do corpo de um jeito vencido.
Levanto-me e, sem pensar muito sobre o assunto, adianto-me para a porta. Quando alcanço a maçaneta, ouço o som novamente. Lá, do outro lado da sala, a moça recomeça seu chiado.
Faço uma besteira, por impulsividade. Viro-me, e ela está há centímetros de mim. Os braços esticados grudam em meu pescoço e eu vejo, pela primeira vez, quem ela é.
Consigo bater a porta contra a mão dela até que ela desiste do meu pescoço, e eu a tranco lá dentro.
Quando eu finalmente acordo, sei que é tarde demais. Uma trilha de sangue corre pela cama, partindo do espaço entre as minhas pernas.
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quarta-feira, 15 de agosto de 2012
Sobre os corredores na minha mente
Alguns corredores são feitos de lembranças
Da essência pegajosa dos sonhos e dos pesadelos
- e de tudo o que pudermos imaginar.
São tão longos quanto a própria dúvida
Tão intrincados quanto o próprio medo
Iluminados por um tipo de esperança,
que cresce desenfreada pelos cantos das paredes.
Algumas lembranças são como corredores
De essência dura como os traumas e os desejos
- e de tudo o que não tentamos conquistar
Tive curiosidade e espiei. Por entre os degraus largos que terminavam no único andar. Era chão frio, liso e escuro, como água pintada de negro. Paredes brancas e sem marcas, como papel intocado. Vi portas, porque tinha segredos. Mas vi pouco, porque os desconhecia. Todos dispostos em ordem alfabética, catalogados e resolvidos pela parte de mim que e não sabia que existia. Encontrei o passado, o presente e uma pequena amostra do que viria, mas não vi eu mesma. Porque me esqueci.
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quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
Sobre as quedas de abismos
Escrito por Juliana Cimeno e Lyvia Jardim
Eu não fazia ideia do caminho, essa era a verdade. Minhas pernas começaram a falhar mais ou menos uma hora depois que comecei a pedalar. Se tivesse ido mais devagar, teria aguentado mais, mas não teria aproveitado o vento no cabelo. No fim, o vento no cabelo sempre vencia qualquer batalha interna.
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
Sobre aquela que odiava o amor
AVISOS
1. Esse post, em particular, não é apropriado para menores de 18 anos.
2. Sou nova na arte de descrever atos sexuais, então talvez tenha falado alguma coisa idiota XD
Foto: Junior Colferai / Ler ouvindo Snuff, Slipknot
"Existe a necessidade absoluta de se sentir desejado e neste círculo do desejo é muito raro que dois desejos se encontrem e se correspondam. O que é uma das grandes tragédias do ser humano" Pedro Almodovar
Acho que nunca percebi o quanto era problemática. Pensava mais nisso como "uma vontade de discordar". Lembro que, quando você me encontrou, eu estava bebendo Coca-Cola zero no bar. Pensei em pedir um copo de leite, mas seria extremo demais, e eu nem gostava de leite. Fiquei com a minha Coca.
Você achou divertido me ver sentada lá, com o canudo e açúcar, meu caderno aberto no balcão, um lápis 6B e pouca inspiração. Achou tão divertido, que se sentou ao meu lado.
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