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domingo, 24 de maio de 2015

about louie



she smiles. it's the best "hi" you are going to get. it isn't a bright smile, though. it is full of bitter, disbelief, and for some reason guilt. she is smiling like someone would say goodbye or i'm sorry.

she is just standing there. of course she was waiting for you... she's got that big sister thing that makes the others spill their guts. they must have told her you were on your way.

she doesn't move or gesture in anyway. you feel like you're staring into an animal eyes - they're careful, angry, hurt and so scared. so scary.

you take a look around. the stone room has a yellow light coming from somewhere, but it doesn't make it any less dark.

- i lit it. so you could see. but you won't find any candles - her voice is surprisingly high-pitched, yet harsh and dragged. you know why. you know it's 'cause it's hard to talk, not to stutter, not to overflood the room with her insides, not to fear judgment.

you nod. she is hugging a book in her arms, a little too tight. it's an old, leather covered, big book. the girl, on the other hand, is short. shorter than you'd think, knowing how much power she has coming out of her pores.

her hair is very black, long and straight, with bangs that give her a younger look. her hair is messy, though, you'd bet she spent the night awake and didn't bother combing before leaving in the morning.

her skin is the kind of white that makes you worried. and you can spot purple bruises on her wrists and collar bone... were they self inflicted?

- i have a few questions - you say in a low voice. the situation is weird and intimidating... knowing yourself, after all, was no easy trick - they might bother you, but i'd like you to make an effort...

- fine - she is rude. and you hold a little laughter. of course she is rude, you think, she wants to sound as wild as she feels.

- well... have a sit - and at that moment a table and two chairs appear between you two. and immediately you regret it... you know that table, you both do. it's the one where all the others locked her in when she became too dangerous for herself.

she backs away, the look in her face makes you wonder if she is about to attack you or run away. but she stands still, rubbing her wrists... the place where the cuffs digged into her skin.

- i think i'd rather stand.

- why don't we.. ? - you gesture to the other side of the room. you both sit across from each other, on the floor. - the first question i got for you is related to responsibility.

she crosses her legs and lay the book there. the school uniform is dark blue and white, and you wonder if she's worried about getting it dirty.

- why do you entitle yourself the big sister?

she rolls her eyes. you raise an eyebrow. she is a real teen.

- i don't entitle myself anything. they do. i just do what i have to do.

- and what is that? what do you have to do?

everything is silent for a sec. you almost think she won't asnwer.  but then you see it... she's trying.

- i have to make sure they are ok.

- why? ok from what?

- ... because that's the way i know how to keep who i care about close. and probably from myself... because i manage to ruin everything, anyway.

- that does not make sense.

- doesn't it? i am so messed up that anyone close to me just gets infected... and gets in danger. and hurt.

- so why do you keep them around? if you care about them?

she looks at you with such pain in her eyes that you regret saying it. you regret every word. it starts hurting you too.

- because i can't stand it alone - her voice cracks at the end. she really is trying.

- why do you think you are so messed up?

she took a second. you're sure she thought about this before, but for some reason explaining was... hard.

- ... you have to ask?

- yes i do. i really do.

- why? 'cause you think you got to build yourself up again and there is some part of me that belongs to you? well guess what? i am nothing good or savable. so you can just leave me alone and be done with it.

- ... louie, please.

she closes her eyes for a second. and breathes. when she comes back, it's cold and focused, like she was finding strength from speaking without any attachment.

- i am the one who can't live a normal life. i screamed my way through sleep my entire childhood. and then i grew up and it didn't got better... they say it's gonna get easier, that life changes and everything changes along. and you know what? the feeling is still the same... i am still that kid with ghosts in her room making her see things. and no one comes to send them away when i scream.

- why don't you send them away yourself, louie?

the question did two things: both pissed her off and made her wonder.

- is that what you do nowdays? you send them away yourself? - it was an honest question.

- the ones i don't want to talk to, yes. the ones i do, i listen to. i can teach you how.

you can hear her heart from across her chest, clothes and the space that separated you two. but you knew what came next.

- no. fear is all i have to keep going.

you nod. you can't say you're not disappointed. neither that you are surprised.

- one last question... why is it that you think you can't do it alone, in life? why do you need people to need you?

she smiled again. that same sorrowful smile. but this time with a bit of fun.

- i don't want my life to be just hate. and i hate myself.

you look at her face and you are sure you're looking at a stranger's face. it's you, but missing parts.

- it's gonna get better, louie.

and you both laugh. what a crappy promise.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Sobre as promessas





“As coisas mais importantes são as mais difíceis de expressar. São coisas das quais você se envergonha, pois as palavras as diminuem – as palavras reduzem as coisas que pareciam ilimitáveis quando estavam dentro de você à mera dimensão normal quando são reveladas. Mas é mais que
isso, não? As coisas mais importantes estão muito próximas de onde o seu segredo está enterrado, como pontos de referência para um tesouro que seus inimigos adorariam roubar. E você pode fazer revelações muito difíceis e as pessoas o olharem de maneira esquisita, sem entender nada do que você disse nem porque eram tão importantes que você quase chorou enquanto estava falando. Isso é pior, eu acho. Quando o segredo fica trancado lá dentro não por falta de um narrador, mas por falta de alguém que o compreenda.”

Stephen King



Ela não gosta das meias sensações. Aquela ponta de tristeza e desespero que coçam no fundo do estômago. Ela não gosta de como isso parece uma promessa.

Sempre preferiu o caos. A agonia que toma conta do corpo, que passa rasgando, destroçando e destruindo. De ter o copo cheio de veneno, e não pela metade. Por isso vive sempre na beirada de precipícios.

Dirigiu até lá a 120 por hora. Queria ir mais rápido, mas não queria chegar logo. A cobertura jogada para trás, e os cabelos negros e compridos voando e ricocheteando nas bochechas freneticamente. Parou na beira da estrada da praia, naquele espaço de descanso que sempre vira do banco de passageiro, quando viajava com os pais.

Não se importou em fechar a porta. Saiu, enterrando o all star e a barra da calça, ambos pretos, na lama. A pele era quase translúcida refletindo a luz da lua. Os olhos cinzas miravam a grande piscina de névoa à sua frente, que cobriam a visão das serras. Era uma queda enorme, grande o bastante para imaginar que estava voando.

Ela espiou por um segundo, curvando-se sobre a grande de proteção. E então soltou uma risada nervosa. Aquilo era muito idiota.

Recostou-se sobre o capô do carro, fechando os olhos. Tanto havia acontecido em tão pouco tempo. Tantos pontos finais - alguns, aliás, inesperados - foram postos. Ela sentia frustração por todo seu corpo, como se estivesse falhando com algum princípio pessoal ao se permitir àquilo.

O meio termo era seu pior pesadelo.

Sentiu ela chegando antes de ouvi-la. Ela caminhava, e deixou-se pisar em cima de algumas folhagens secas, que craquelearam enquanto ela se aproximava.

Primeiro sentiu o cheio de seus cabelos. Aquele creme para pentear pesado e doce. Depois, a frieza de sua pele, quando uma de suas mãos a empurrou para o lado, abrindo espaço para que ela também pudesse se encostar no carro. A combinação das duas figuras era sombria. Cabelos negros e cor de fogo se encontravam no ar.

-  Problemas para dormir? - perguntou a ruiva, sem olhar para a morena.

- Problemas para acordar? - retrucou a morena, sem olhar para a ruiva.

Ficaram em silêncio por alguns segundos. A morena suspirou.

- Você é muito orgulhosa para falar o que quer. Vá embora - era um tom direto e limpo, como se apenas afirmasse algo muito óbvio.

- Eu sou orgulhosa? E quanto à você? Quando é que vai dizer o que quer? - a ruiva, pelo contrário, soava enfurecida.

A morena virou-se para a outra, estudando sua expressão. Tanto tempo se passara, e seu mal continuava sendo hesitar.  A ruiva não tinha esse problema.

- Foi o que pensei... Então acho que nunca saberemos.

- Eu não tenho mais paciência - cortou, ainda em seu tom desinteressado - acho que fui perdendo aos poucos.

- Explique melhor.

- É disso que estou falando - ela desviou o olhar de novo para a cortina branca de fumaça abaixo delas - eu não tenho mais paciência para me defender de você. De me explicar...

- Defender do que? É você que tem o costume de descontar as tensões da vida nas nossas conversas - ela também virou o rosto - parece até que gosta de puxar briga.

A morena sentiu a onda de frustração novamente, agora mais forte. Ela não tinha boas respostas, ela não tinha bons motivos. Ela não tinha boas intenções, avisara desde o começo.

- Tem razão. Eu puxei briga. Quando contei essa história para as pessoas, fiz você parecer idiota. Se você revivesse a conversa, veria como é idiota. Mas eu estava puxando briga.

- Não tem nada de idiota. Eu não vou ficar calada enquanto ouço um monte de asneiras sobre mim, você não me conhece.

- Mais uma vez, você tem razão.

- Qual é o seu problema?! - ela levantou a voz, irritada, embora não o bastante para que fosse um escândalo.

- Meu problema é que eu não quero mais discutir de quem é a culpa. Eu e você criamos uma coisa frágil, e achamos que duraria tempo o bastante para que estivéssemos satisfeitas. Mas não é assim que as coisas funcionam. Deixamos que se quebrasse há muito tempo atrás.

- Você deixou que se quebrasse! Foi sempre você, não entende? Todas as vezes que caímos, foi sua culpa. Você voltou estranha, da primeira vez. Depois se entreteu demais com a própria vida, e me esqueceu. Você já me traiu, me desamparou quando eu mais precisava...É sempre você! - agora ela falava rapidamente, como se tivesse pensado em todas aquelas palavras muitas vezes.

- Já pedi para que fosse embora - limitou-se a morena.

- É isso, apenas? Vai bancar a covarde?

- Não, eu vou manter uma promessa.

- Do que está falando?

- Todas as vezes em que eu aceitei a culpa por alguma discussão, problema ou merda que aconteceu entre a gente, sem realmente me sentir culpada. Todas as vezes em que eu deixei você se impor na nossa relação... Voltar de todas elas, para seus braços, matava meu amor próprio.

- Amor próprio que eu te ensinei a ter.

- Mas eu lembro de todas as vezes que o contrário aconteceu - ela continuou como se não tivesse sido interrompida -, quando era você que precisava voltar. E por três vezes você disse adeus.

- Aquilo foi...

- Aquilo foi minha promessa, lembra? Eu disse que o dia em que eu desse adeus, seria para sempre.

- Está dizendo adeus?

- Acho que sim.

As duas não se mexeram por um bom tempo. A ruiva não choraria até que saísse dali. A morena não choraria até que saísse do meio termo.

Quando finalmente pode se mexer, a ruiva refez seu caminho, sem olhar para trás. A morena também não observou.

Elas nunca mais se viram.