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sexta-feira, 20 de abril de 2012

Sobre estar inalcançável

Foto by Juliana Cimeno | Ler ouvindo: Burberry, Remember



Eu pensei que entendia, mas o peso da informação só se fez presente agora.

O amor é nada mais que uma palavra pronunciada. Uma acusação de dor. Um anúncio de simpatia. O descarrego de responsabilidade sobre os ombros de outra pessoa.

Eu preciso de você porque não sei viver comigo mesma na escuridão, e não conheço mais ninguém que se arrisca nas sombras, apenas para ficar ao meu lado.

Você não precisa mais de mim, talvez nunca tenha precisado. Eu não sou sua única. Eu não sou mais nada.

Ela precisa de mim porque eu sei o que dizer. Porque eu o digo. E porque faz sentido.

Eu preciso dela porque você não está por perto. Porque não tem mais ninguém por perto. Porque é mais fácil.

Mas não funciona. E eu preciso de você.

Amanhã é 21. Amanhã é várias coisas. Amanhã é seu aniversário. Amanhã vem chegando devagar, se arrastando pela minha visão periférica. Se espalhando pelo ar como fumaça tóxica. Amanhã queima nos meus olhos e na minha mente e no meu peito.

Você está inalcançável porque eu te deixei inalcançável. E porque você deixou. Afinal, não há culpa unilateral. Não há mérito em uma relação destruída. Você está inalcançável.

E eu luto. Em parte para te alcançar. Em parte para te deixar mais longe.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Sobre as promessas





“As coisas mais importantes são as mais difíceis de expressar. São coisas das quais você se envergonha, pois as palavras as diminuem – as palavras reduzem as coisas que pareciam ilimitáveis quando estavam dentro de você à mera dimensão normal quando são reveladas. Mas é mais que
isso, não? As coisas mais importantes estão muito próximas de onde o seu segredo está enterrado, como pontos de referência para um tesouro que seus inimigos adorariam roubar. E você pode fazer revelações muito difíceis e as pessoas o olharem de maneira esquisita, sem entender nada do que você disse nem porque eram tão importantes que você quase chorou enquanto estava falando. Isso é pior, eu acho. Quando o segredo fica trancado lá dentro não por falta de um narrador, mas por falta de alguém que o compreenda.”

Stephen King



Ela não gosta das meias sensações. Aquela ponta de tristeza e desespero que coçam no fundo do estômago. Ela não gosta de como isso parece uma promessa.

Sempre preferiu o caos. A agonia que toma conta do corpo, que passa rasgando, destroçando e destruindo. De ter o copo cheio de veneno, e não pela metade. Por isso vive sempre na beirada de precipícios.

Dirigiu até lá a 120 por hora. Queria ir mais rápido, mas não queria chegar logo. A cobertura jogada para trás, e os cabelos negros e compridos voando e ricocheteando nas bochechas freneticamente. Parou na beira da estrada da praia, naquele espaço de descanso que sempre vira do banco de passageiro, quando viajava com os pais.

Não se importou em fechar a porta. Saiu, enterrando o all star e a barra da calça, ambos pretos, na lama. A pele era quase translúcida refletindo a luz da lua. Os olhos cinzas miravam a grande piscina de névoa à sua frente, que cobriam a visão das serras. Era uma queda enorme, grande o bastante para imaginar que estava voando.

Ela espiou por um segundo, curvando-se sobre a grande de proteção. E então soltou uma risada nervosa. Aquilo era muito idiota.

Recostou-se sobre o capô do carro, fechando os olhos. Tanto havia acontecido em tão pouco tempo. Tantos pontos finais - alguns, aliás, inesperados - foram postos. Ela sentia frustração por todo seu corpo, como se estivesse falhando com algum princípio pessoal ao se permitir àquilo.

O meio termo era seu pior pesadelo.

Sentiu ela chegando antes de ouvi-la. Ela caminhava, e deixou-se pisar em cima de algumas folhagens secas, que craquelearam enquanto ela se aproximava.

Primeiro sentiu o cheio de seus cabelos. Aquele creme para pentear pesado e doce. Depois, a frieza de sua pele, quando uma de suas mãos a empurrou para o lado, abrindo espaço para que ela também pudesse se encostar no carro. A combinação das duas figuras era sombria. Cabelos negros e cor de fogo se encontravam no ar.

-  Problemas para dormir? - perguntou a ruiva, sem olhar para a morena.

- Problemas para acordar? - retrucou a morena, sem olhar para a ruiva.

Ficaram em silêncio por alguns segundos. A morena suspirou.

- Você é muito orgulhosa para falar o que quer. Vá embora - era um tom direto e limpo, como se apenas afirmasse algo muito óbvio.

- Eu sou orgulhosa? E quanto à você? Quando é que vai dizer o que quer? - a ruiva, pelo contrário, soava enfurecida.

A morena virou-se para a outra, estudando sua expressão. Tanto tempo se passara, e seu mal continuava sendo hesitar.  A ruiva não tinha esse problema.

- Foi o que pensei... Então acho que nunca saberemos.

- Eu não tenho mais paciência - cortou, ainda em seu tom desinteressado - acho que fui perdendo aos poucos.

- Explique melhor.

- É disso que estou falando - ela desviou o olhar de novo para a cortina branca de fumaça abaixo delas - eu não tenho mais paciência para me defender de você. De me explicar...

- Defender do que? É você que tem o costume de descontar as tensões da vida nas nossas conversas - ela também virou o rosto - parece até que gosta de puxar briga.

A morena sentiu a onda de frustração novamente, agora mais forte. Ela não tinha boas respostas, ela não tinha bons motivos. Ela não tinha boas intenções, avisara desde o começo.

- Tem razão. Eu puxei briga. Quando contei essa história para as pessoas, fiz você parecer idiota. Se você revivesse a conversa, veria como é idiota. Mas eu estava puxando briga.

- Não tem nada de idiota. Eu não vou ficar calada enquanto ouço um monte de asneiras sobre mim, você não me conhece.

- Mais uma vez, você tem razão.

- Qual é o seu problema?! - ela levantou a voz, irritada, embora não o bastante para que fosse um escândalo.

- Meu problema é que eu não quero mais discutir de quem é a culpa. Eu e você criamos uma coisa frágil, e achamos que duraria tempo o bastante para que estivéssemos satisfeitas. Mas não é assim que as coisas funcionam. Deixamos que se quebrasse há muito tempo atrás.

- Você deixou que se quebrasse! Foi sempre você, não entende? Todas as vezes que caímos, foi sua culpa. Você voltou estranha, da primeira vez. Depois se entreteu demais com a própria vida, e me esqueceu. Você já me traiu, me desamparou quando eu mais precisava...É sempre você! - agora ela falava rapidamente, como se tivesse pensado em todas aquelas palavras muitas vezes.

- Já pedi para que fosse embora - limitou-se a morena.

- É isso, apenas? Vai bancar a covarde?

- Não, eu vou manter uma promessa.

- Do que está falando?

- Todas as vezes em que eu aceitei a culpa por alguma discussão, problema ou merda que aconteceu entre a gente, sem realmente me sentir culpada. Todas as vezes em que eu deixei você se impor na nossa relação... Voltar de todas elas, para seus braços, matava meu amor próprio.

- Amor próprio que eu te ensinei a ter.

- Mas eu lembro de todas as vezes que o contrário aconteceu - ela continuou como se não tivesse sido interrompida -, quando era você que precisava voltar. E por três vezes você disse adeus.

- Aquilo foi...

- Aquilo foi minha promessa, lembra? Eu disse que o dia em que eu desse adeus, seria para sempre.

- Está dizendo adeus?

- Acho que sim.

As duas não se mexeram por um bom tempo. A ruiva não choraria até que saísse dali. A morena não choraria até que saísse do meio termo.

Quando finalmente pode se mexer, a ruiva refez seu caminho, sem olhar para trás. A morena também não observou.

Elas nunca mais se viram. 

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Resultado do Ócio Perigoso

A garota não parecia ter mais do que 18 anos, seus cabelos negros caíam lisos até o meio das costas, a franja comprida atrapalhava a visão e sombreva o rosto pálido.
Vestia o velho uniforme do colégio interno, a saia de prega azul marinho e a camisa brança ainda serviam e formavam junto à cena, uma grande ironia anacrônica.
Sua mente estava clara, quase leve. Tão vazia que era quase insuportavel continuar em silêncio.
Louie levantou o braço esquerdo em direção à mulher em sua frente, a arma ainda travada parecendo um peso morto em sua mão.
A mulher mudou de posição, desconfortável. A expressão era dura e imutável, mas algo em seus olhos demonstravam incerteza...Medo.
Alex encarou Louie, sua filha, pela primeira vez desde que essa entrara na sala. As linhas de seu rosto indicavam que a ausência de qualquer controle, indicavam que a bandeira branca estava agora fora de cogitação.
Alex sorriu, os cantos da boca retorciam-se em humor. Suas mãos largaram os papeis em sima da mesa e se juntaram num sinal de contemplação.
- O que acha que está fazendo, menina? - sua voz saiu firme.
Louie soltou o casaco do uniforme, que segurava rente ao corpo, antes escondendo a arma. Quando a peça tocou o chão, a mulher pôde notar que não era a única coisa que ele escondia.
A camisa branca grudava no corpo na altura da barriga, manchada de algo que parecia ser...Sangue.
Os olhos de Alex, assim como a garota esperava, se iluminaram involuntariamente. Estava feito.
- Entendo - disse, sem se mover - Bom, se estava perto quando aconteceu, tenho certeza que viu os dois lados da situação. Era a sua segurança ou a dela.
- E não a sua, você não tinha nada com isso - Louie disse num suspiro, a voz baixa e rouca, soando como a de outra pessoa à seus próprios ouvidos.
- Você é minha filha, tinha tudo a ver comigo. Não aja como uma ingrata.
Louie não respondeu, seus dedos alcançaram a trava da arma, soltando-a. Estava a um clique, um segundo, uma batida de coração de acabar tudo aquilo. Não hesitaria.
- Você não vai me matar - concluiu Alex - Não vai matar sua própria mãe. Você não tem coragem o bastante...Isso a tornaria uma de nós.
- Infelizmente - interrompeu a garota- A única pessoa que convenceria do contrário está agora à seis palmos abaixo da terra...Então salve o fôlego.
Antes mesmo que pudesse temrinar a franse, apertou o gatilho.
A arma soltou um estampido seco, alto e o metal em sua mão se tornou quente.
Fechou seus olhos automaticamente. O revolver rolou para o chão enquanto seus joelhos começavam a tremer e perder a força.
Obrigou os olhos a abrirem e as pernas a permanecerem firmes.
A bala pendia no ar, entre a mulher e a garota, Alex recostava-se na parede, em alerta, mas incapaz de se mover.
Louie sabia, e preferia não saber, o que havia acontecido.
Num milésimo de segundo, a bala mudou seu curso, atingindo em cheio seu coração.



Estava terminado.