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sexta-feira, 20 de abril de 2012

Sobre estar inalcançável

Foto by Juliana Cimeno | Ler ouvindo: Burberry, Remember



Eu pensei que entendia, mas o peso da informação só se fez presente agora.

O amor é nada mais que uma palavra pronunciada. Uma acusação de dor. Um anúncio de simpatia. O descarrego de responsabilidade sobre os ombros de outra pessoa.

Eu preciso de você porque não sei viver comigo mesma na escuridão, e não conheço mais ninguém que se arrisca nas sombras, apenas para ficar ao meu lado.

Você não precisa mais de mim, talvez nunca tenha precisado. Eu não sou sua única. Eu não sou mais nada.

Ela precisa de mim porque eu sei o que dizer. Porque eu o digo. E porque faz sentido.

Eu preciso dela porque você não está por perto. Porque não tem mais ninguém por perto. Porque é mais fácil.

Mas não funciona. E eu preciso de você.

Amanhã é 21. Amanhã é várias coisas. Amanhã é seu aniversário. Amanhã vem chegando devagar, se arrastando pela minha visão periférica. Se espalhando pelo ar como fumaça tóxica. Amanhã queima nos meus olhos e na minha mente e no meu peito.

Você está inalcançável porque eu te deixei inalcançável. E porque você deixou. Afinal, não há culpa unilateral. Não há mérito em uma relação destruída. Você está inalcançável.

E eu luto. Em parte para te alcançar. Em parte para te deixar mais longe.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Wonderwall

"...There's a lot of things that I would like to say to you, but I don't know how"






Ela parou um segundo para observar as grandes manchas de musgo que subiam pelas paredes. Sentia o cheiro de relva úmida invadir-lhe os sentidos.
Podia fazer qualquer coisa. Sabia. Qualquer coisa que pudesse imaginar.
Às vezes sofria de falta de imaginação. Era um problema crônico, mas não perene.

Tinha em mãos as canetas permanentes que comprara na loja ao lado de sua casa. Nunca achou que a usaria para qualquer coisa além de marcar CDs e o rosto de sua irmã mais velha. Estava enganada.

Aproximou-se do vidro espelhado, que refletia a luz fraca da manhã. Era uma antiga casa, abandonada pelo tempo na extensão mais afastada de sua cidade. Grades árvores a envolviam, quase como um muro de preservação das paredes restantes.
Não havia teto. As portas foram arrancadas e o chão e a base das paredes eram cobertas pela vegetação rasteira.
Afastou alguns pensamentos escuros de sua cabeça. Não estaria em perigo, desde que não imaginasse o perigo.

Tirou a tampa da caneta de cor preta e pôs-se a riscar. Pensava em criaturas, em animais, em monstros e em flores. Mas hoje não usaria sua habilidade para aquilo.
A figura montava lentamente um homem. O conhecia de seus sonhos.

Havia coisas sobre ele que não eram secretas. Sua camiseta branca, que às vezes era substituída por uma cinza. Seus olhos e cabelos negros, sua pele branca. O modo como arrastava a voz, mesmo quando não estava entediado. As unhas roídas e o controle sobre a matéria líquida. Nada disso era informação importante, julgava o alter-ego menos verbal.

Outras coisas, como a habilidade de constranger com um olhar prolongado, o sotaque levemente sulista, a cicatriz na palma da mão, feita acidentalmente em arame farpado, a rigidez de seus ombros e maxilar quando seu pai era mencionado, a preferência por bebidas virgens e chocolate meio-amargo eram, definitivamente, partes de Henrique que só ela tinha.

Mas as sensações que possuía impressas em sua memória, sem nunca antes vivenciar, eram aquelas pelas quais ela mais ansiava. A intensidade dos beijos verticais, terminados com suspiros, o jeito como afundaria o rosto em seus ombros, respirando junto a seus cabelos e mordendo levemente a base de seu pescoço momentos antes de explodir em êxtase. A violência explícita, jogada inconscientemente, quando perdia o controle de seu próprio corpo – até esta, pela qual sempre temera, ela esperava no plano real.

Sentiu-se cansada após derramar toda a consciência física e espiritual daquele personagem sobre a figura. Não haveria retrato mais semelhante.
Fechou os olhos. Era sua prova final. Antes de finalizá-lo, sentiu um jorro de expectativa nascer em seu estômago. Riu de seu despreparo.



Quando abriu os olhos... Lá estava ele.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Dois dias na vida de uma luz

quando soou o relógio, levantou
pegou a vida, algumas roupas, algumas memórias
deu descarga
foi tudo


quando viu já era dia de novo
pegou a vida, algumas fotos, o resto de memória
deu tudo para os pobres...
apagou as velas e deixou que morresse.

sexta-feira, 12 de março de 2010

So Fitting




"Find a safe place, brace yourself, bite your lips
I'm sending your fingernails and empty bottles you've sipped
Back to your family cause I know you will be missed
So you can find a safe place, brace yourself

They call kids like us vicious and carved out of stone
But for what we've become, we just feel more alone
Always weigh what I've lost against what I left
So progress report: I am missing you to death"


I Slept With Someone In Fall Out Boy And All I Got Was This Stupid Song Written About Me - Fall Out Boy.






Hoje me sinto sozinha.
Não, não é uma boa palavra,
mas é a melhor tradução pra "lonely" que encontrei.
Tenho uma lista de motivos, mas nenhum que me distraia o bastante.
Uma sensação simples - clara e conhecida.
Quem sabe saudade, quem sabe "aqueles dias", quem sabe efeito-colateral, quem sabe...
Tenho uma playlist, cheia de inspirações direcionadas.
Uma carta, um objetivo, uma missão.
Logo elas voam, e levam consigo meu compromisso com a realidade.
Espero que arrastem também minha sinestesia,
Que torna minha tristeza física, minha alegria líquida e minha saudade numa mala pesada.



...Largo-a no canto da estrada, sento-me em cima e ponho os fones de ouvido.
Daqui só levando quando a carona chegar.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Resultado do Ócio Perigoso

A garota não parecia ter mais do que 18 anos, seus cabelos negros caíam lisos até o meio das costas, a franja comprida atrapalhava a visão e sombreva o rosto pálido.
Vestia o velho uniforme do colégio interno, a saia de prega azul marinho e a camisa brança ainda serviam e formavam junto à cena, uma grande ironia anacrônica.
Sua mente estava clara, quase leve. Tão vazia que era quase insuportavel continuar em silêncio.
Louie levantou o braço esquerdo em direção à mulher em sua frente, a arma ainda travada parecendo um peso morto em sua mão.
A mulher mudou de posição, desconfortável. A expressão era dura e imutável, mas algo em seus olhos demonstravam incerteza...Medo.
Alex encarou Louie, sua filha, pela primeira vez desde que essa entrara na sala. As linhas de seu rosto indicavam que a ausência de qualquer controle, indicavam que a bandeira branca estava agora fora de cogitação.
Alex sorriu, os cantos da boca retorciam-se em humor. Suas mãos largaram os papeis em sima da mesa e se juntaram num sinal de contemplação.
- O que acha que está fazendo, menina? - sua voz saiu firme.
Louie soltou o casaco do uniforme, que segurava rente ao corpo, antes escondendo a arma. Quando a peça tocou o chão, a mulher pôde notar que não era a única coisa que ele escondia.
A camisa branca grudava no corpo na altura da barriga, manchada de algo que parecia ser...Sangue.
Os olhos de Alex, assim como a garota esperava, se iluminaram involuntariamente. Estava feito.
- Entendo - disse, sem se mover - Bom, se estava perto quando aconteceu, tenho certeza que viu os dois lados da situação. Era a sua segurança ou a dela.
- E não a sua, você não tinha nada com isso - Louie disse num suspiro, a voz baixa e rouca, soando como a de outra pessoa à seus próprios ouvidos.
- Você é minha filha, tinha tudo a ver comigo. Não aja como uma ingrata.
Louie não respondeu, seus dedos alcançaram a trava da arma, soltando-a. Estava a um clique, um segundo, uma batida de coração de acabar tudo aquilo. Não hesitaria.
- Você não vai me matar - concluiu Alex - Não vai matar sua própria mãe. Você não tem coragem o bastante...Isso a tornaria uma de nós.
- Infelizmente - interrompeu a garota- A única pessoa que convenceria do contrário está agora à seis palmos abaixo da terra...Então salve o fôlego.
Antes mesmo que pudesse temrinar a franse, apertou o gatilho.
A arma soltou um estampido seco, alto e o metal em sua mão se tornou quente.
Fechou seus olhos automaticamente. O revolver rolou para o chão enquanto seus joelhos começavam a tremer e perder a força.
Obrigou os olhos a abrirem e as pernas a permanecerem firmes.
A bala pendia no ar, entre a mulher e a garota, Alex recostava-se na parede, em alerta, mas incapaz de se mover.
Louie sabia, e preferia não saber, o que havia acontecido.
Num milésimo de segundo, a bala mudou seu curso, atingindo em cheio seu coração.



Estava terminado.

domingo, 11 de maio de 2008

{epifania ilustrativa}


Desejos abortados no ato,
me lembrei do que é dia!
Aquele tumulto de gente e a mente tão sozinha.
Aquela algazarra de jeitos e nenhum que faça completo.
Aquilo de dizer o que pensou sem saber se significa

Esquecer não é tão fácil quando a alma sonha pela metade,
E o restante fica boiando,
Pelos pedaços de mim espalhados pelo mundo...

---


[today mode on]

Parece que o tempo foi passando em flashes rápidos sem repetição. Parece que meu cérebro não trabalha mais em sintonia com o coração. Parece que eu parei na metade.
O que acontece quando a pessoa que te ensina a viver te solta antes da lição final?
Parece que nada tem mais tanta graça. Parece que a compania certa vem na hora errada. Parece que o vazio toma o espaço que ocupei com lembranças.
E se o novo começo não for tão bom quando o anterior?