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quarta-feira, 26 de junho de 2013

Sobre a última aventura de férias

do filme "Conta Comigo" - um dos meus preferidos


Ler ouvindo a trilha sonora de "Conta Comigo".


Para explicar os acontecimentos daquela tarde de férias, uma das minhas últimas férias da escola, aliás, é preciso relembrar do começo. Tudo começou como "tudo" geralmente começa: com uma história. Minha avó era cheia de histórias naquela época.

Eram os idos de 1995, e o tipo de tecnologia que eu tinha disponível na minha vida não era o bastante para me entreter, como hoje. Uma das minhas coisas preferidas no mundo era ouvir histórias, fossem elas verdadeiras ou lidas de livros. As da minha vó eram sempre verdadeiras. Ou pelo menos era o que ela dizia.

Ela passara a maior parte de sua juventude morando em um sítio, no interior da cidade de Suzano. Suzano, no caso, não era a cidade cinza e esfumaçada que é hoje. Antigamente, ela era verde, com estradas de terra, e cheia de mistérios. Ela chamava o lugar de "sertãozinho".

Lá no sertãozinho, muitas coisas eram normais. Coisas que, para qualquer outra pessoa, faziam parte de filmes e livros de suspense e terror apenas. Temer alma penada, por exemplo, era sinal de esperteza. Essa história de que as pessoas vivas são as únicas que podem te machucar só apareceu muito depois, quando todo mundo passou a saber o nome de todo mundo, e mais nada de relevante.

No caso da minha avó, o medo era do Saci. Ela dizia que as lendas eram outras e o costume, na sua época, era deixar oferendas para os santos. De vez em quando, uma ou outra entidade arteira pegava essa oferenda, e aí era uma confusão só. O Saci, em especial, era louquinho pelo café que ela deixava para São Benedito.

Pois bem, em 1995 ou algo parecido, eu era pequena o bastante para deixar a minha curiosidade me guiar, e grande demais para acreditar em tudo. Mas se sua vó diz que é verdade, você acredita. Pelo menos eu acreditava.

E nas tardes que passava com ela aprendia sobre esse tal de Saci, que não era necessariamente um moleque de uma perna só, mas um ser poderoso que poderia trazer muita desgraça se ficasse nervoso. Também aprendi sobre a mula-sem-cabeça, o boto cor-de-rosa, sobre maldições jogadas em famílias inteiras, sobre o significado de sonhos e a utilidade das ervas para curar doenças ou livrar a casa de más energias.

Dez anos depois, minha avó já não dava mais café para o São Benedito. Minha tia se convertera à igreja evangélica e não permitia mais a imagem de santos - ou de nossa senhora - dentro de casa. Minha mãe insistia em me dizer que alma penada não existia.

Mas eu, também, era de outra época. E me recursava a sair daquele mundo em que tudo, ou quase tudo, era possível. Foi assim que virei o que as pessoas chamam de "criança grande".

Acho que já era 2006. As últimas férias escolares livres, sem pensar em vestibular ou trabalho. E eu e mais dois amigos, tão famintos por aventura e fantasia quanto eu, resolvemos sair em uma exploração.

E foi aí que tudo aconteceu.

A gente não planejou direito, devo dizer. Era uma tarde de verão típica. O que, por si só, já devia ter sido informação o bastante para nos avisar que: 1) a estrada estaria MUITO quente e 2) um toró sem igual podia cair a qualquer momento.

Enchemos a mochila de coisas para comer e beber e seguimos pela linha do trem, que era desativada a partir de César de Souza. Ou era o que pensávamos.

O caminho, por si só, já era difícil o bastante. Caminhar entre as tábuas desiguais da linha exigia concentração e certa coordenação motora. Além disso, nós três usávamos tênis All Star e podíamos sentir a temperatura e forma exatas do chão através da sola.

Os primeiros metros correram rapidamente, embalado por conversas. Nós não éramos qualquer tipo de amigos - éramos um trio. Um trio preparado, principalmente, para entrar em encrencas e se meter em furadas.

Antes que as árvores pudessem acabar, a trilha ladeou o que parecia uma pequena vila de casas. O lugar não era particularmente povoado, mas não era deserto. Um garoto surgiu do nada - era pequeno e tinha a pele avermelhada pelo sol. Suas roupas estavam sujas, como a de uma criança muito arteira, que passa o dia todo na rua, brincando. Ele estava descalço.

Era o único por ali. Pelo menos era a história que o silêncio nos contava. Ele nos encarava sem rodeios.

Por algum motivo, apertamos o passo. O olhar que o garoto nos lançava não era amigável. Era desconfiado, gelado e atento, como se guardasse o território.

Olhei para um dos meus amigos, o que tinha mais facilidade em sentir as energias de um lugar ou uma pessoa. Acho que ele sentia o mesmo que eu.

E a sensação era a de ter entrado no set de gravação do filme "O Albergue". Eu podia sentir o cheiro de sangue. Ou talvez fosse de terra vermelha. E eu podia sentir o cheiro de carne podre. Ou talvez algum bicho tivesse caído morto ali perto. Eu também sentia uma energia gelada, que é característica de locais onde coisas ou seres morrem. Não havia alternativa para aquela sensação.

Ultrapassamos o limite da vila e prosseguimos, agora expostos ao calor direto do sol, deixando as sombras das árvores para trás, junto com o garoto que ainda olhava em nossa direção.

Naquele ponto, o trilho do trem tomava altitude. Estávamos no topo de um morro escorregadio e seco, sem trilhas de descida à vista. Aquilo não teria sido um problema, não fosse pelos raios que começavam a quebrar bem próximos àquele ponto.

Estávamos quase correndo. Já não falávamos mais. Percebíamos que aquilo era uma bela de uma má ideia, mas já havíamos avançado demais para dar meia volta. A cachoeira, nosso destino, devia estar perto. Bem perto.

Foi então que as primeiras gotas caíram. Não eram gotas finas, daquelas que avisam sobre o começo da chuva. Era um temporal inteiro. Corremos mais, sem a menor ideia do que deveríamos fazer.

Já estávamos completamente encharcados quando um dos meus amigos avistou um buraco seco, grande o bastante para caber nós três. Entramos sem a menor hesitação, deixando que nossas roupas encharcadas nos jogassem no chão.

Recuperei o fôlego e tirei o cabelo molhado de frente do rosto. Já era a terceira hora de caminhada e não seria inteligente voltar. Deveríamos ficar ali até a chuva passar, depois retomar a caminhada. Em meia hora, no máximo, chegaríamos até Sabaúna. E então seria apenas cinco minutos até a cachoeira.

Esse plano, obviamente, não deu certo. Porque nesse mesmo segundo ouvimos um barulho estranho, vindo do fundo do buraco.

Naquele instante, me senti ligeiramente burra por não ter percebido que  aquilo não era um buraco qualquer, desabitado. Era uma toca. A casa de alguém. Ou melhor, de alguéns.

Uma criatura enorme nos encarava, protegendo outras criaturas menores, suas miniaturas. Seus filhotes.

Ao que tudo indicava aquilo era um javali. O que era absolutamente impossível, já que não haviam javalis ali, naquela cidade.

O javali-mãe urrou quando viu que finalmente percebíamos sua presença. Não era um urro amigável. Era assustador e mandava uma mensagem muito clara: vou comer a cabeça de vocês se não derem o fora daqui e deixarem meus filhotes em paz.

E foi bem o que fizemos. Acho que nunca corri tanto na minha vida. Ou gritei. Quando paramos, vários mil metros à frente, senti gosto de sangue na garganta.

A chuva, pelo menos, começava a passar, e já nos deixava caminhar sem morrer afogados.

Tomamos esse desafogo como um presságio de que a sorte estava mudando. Finalmente uma trilha bem demarcada surgia no morro. Poderíamos chegar à estrada e nos proteger do sol e da chuva, embaixo das copas das árvores.

Eu fui a primeira a pisar na trilha. Tive cuidado, pois o chão, além de molhado, também era coberto de musgo. Eu não tive a chance de escorregar.

Logo à minha frente, várias cobras se entrelaçavam, cobrindo a trilha.

Brequei imediatamente, abrindo os braços para deter meus amigos, que vinham logo atrás de mim. O movimento deve ter sido muito abrupto, pois ambos colidiram às minhas costas, me jogando direto para as cobras.

Caí com uma das mãos em cima da cabeça de uma particularmente grande. Era verde, e eu tinha certeza de que ela me mataria naquele mesmo instante.

Nenhum dos dois antas tentou me ajudar. Fiquei estirada naquela posição por alguns segundos, até perceber que estava sozinha ali. Meus amigos estavam de volta à linha do trem, gritando para que eu fizesse o mesmo.

E eu fiz. Mais uma vez, acho que quebrei algum tipo de recorde pessoal de corrida. Dessa vez, sem gritar.

Guardei os berros para os dois. Discutíamos alto, sobre como àquilo era culpa do outro. Também gargalhávamos alto. Tão alto que fazia meu peito doer. O nome daquilo era histeria.

Continuamos pelo trilho, sem qualquer outra opção, e também sem vontade nenhuma de voltar e lidar com os pequenos problemas que havíamos deixado para trás.

E então voltamos ao chão. O trilho desceu direto para uma estrada e nós não pensamos duas vezes. Corremos, felizes, e se me lembro bem, um deles deitou no chão e rolou, feliz de ver e sentir o asfalto novamente.

Foi aí que um carro branco passou por nós. Passou bem devagar, para que pudéssemos ver quem estava dentro. No banco de trás, o mesmo menino que nos observava na vila, aparecia pela frente da janela. Não conseguíamos ver quem dirigia. Ou quem mais estava no carro.

Paramos no meio da rua, enquanto o carro seguia e brecava há alguns metros de distância. Guardei meu grito, mas fui a única.

O carro fez uma curva rápida e voltou em nossa direção. Mas passou reto. Antes que pudéssemos nos sentir a salvo, porém, ele brecou novamente, e fez o mesmo percurso que antes. Quem é que fosse lá dentro, queria que nos sentíssemos encurralados.

E conseguiu.

Antes de entender o que estava acontecendo, antes mesmo de processar qualquer tipo de terror que pudesse nos paralisar, simplesmente corremos. De volta à trilha. De volta ao maldito trilho de trem.

O trilho subiu por metros e metros e metros. Estávamos mais ao alto que nunca. E a trilha que deixávamos para trás era, basicamente, a única que parecia existir por ali.

O fim da tarde começava a manchar o céu de colorido e o sol e o calor já não incomodavam mais. Mas estávamos tão cansados, irritados e assustados - além das roupas molhadas de chuva e suor - que aquilo não pareceu uma melhora. Queríamos voltar ao chão, um lugar para sentar, uma carona de volta para casa. E talvez uma semana só para esquecer o que tinha acontecido.

Como se fosse algum tipo de resposta divina, os trilhos começaram a descer. Já podíamos ver o ponto em que ele nivelava-se com a estrada de terra. E comemoramos.

Cedo demais.

Um barulho distante chamou nossa atenção. Era um chiado. Batidas. Coisas rolando. Não foi até que o chão começou a tremer que entendemos do que se tratava... Tinha um trem vindo.

Não havia para onde correr, a não ser para frente. Para o tal do nivelamento. Para a estrada. E ela estava tão longe. E corremos, como se não houvesse amanhã. O que poderia mesmo não haver, caso não corrêssemos rápido o bastante.

Alcançamos a estrada por um triz, o que parecia ser o "último segundo". E caímos no chão, observando o trem de carga passar por nós zombeteiramente, sem fôlego e energia.

Foi lá do chão que vimos a placa. Estávamos a exatos dois mil metros da entrada de Sabaúna. Tão perto que um pouco da motivação voltou para nossas veias. Estávamos quase lá. Quase na cachoeira.

De dentro de uma das mochilas surgiu uma câmera fotográfica, daquelas quadradas e de qualidade duvidosa. Eu, com minhas pretensões de diretora, tomei a iniciativa e comecei a documentação do nosso fim de jornada.

Coloquei no modo vídeo e apontei a lente para os dois. Um de cada vez contou a sua versão de como as coisas tinham acontecido.

Inevitavelmente, tudo acabou em piada - verdadeiras “found footages” de ataques do pé grande.

Nos distraímos tanto que esquecemos de tudo, inclusive de olhar pelo caminho. Esse, podemos dizer assim, era nosso erro recorrente.

Entre uma gargalhada e outra ouvimos os latidos. E, imediatamente, uma mistura de pânico e conformismo se formou no ar. Ninguém me mexeu - tudo indicava que, se houvessem cães raivosos naquela área, haveria também uma cerca para separá-los dos "passantes desavisados".

Não havia.

E, pela centésima vez naquele dia, pus-me a correr abestadamente. Não conseguia ver quantos cães eram, ou seus tamanhos, ou mesmo imaginar que, talvez, se parássemos de correr, eles parariam de nos perseguir.

Continuamos correndo mesmo quando os latidos desapareceram. Continuamos correndo mesmo quando chegamos ao que imaginávamos ser a entrada de Sabaúna. Continuamos correndo até que alcançamos a civilização.

Nos espalhamos em um banco de ponto de ônibus, com nada além da certeza de que o que acontecera naquele dia nunca seria levado a sério por ninguém além de nós três.

Paramos algumas pessoas que passavam por ali, para saber há quantos minutos estávamos da cachoeira. Cerca de cinco minutos. Coisa rápida. Quase imediata.  Só precisávamos continuar seguindo.

Olhamos uns para os outros e, naquele silêncio sem argumentos, tomamos uma das mais estranhas decisões.

Pegamos o primeiro ônibus de volta para casa, deixando para trás a trilha, os perigos e a cachoeira. Mas carregando nas mochilas e na cabeça a curiosidade de descobrir o que é que nos esperava no fim do caminho.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Sobre o karma


Por: Renée



A sala estava aparentemente vazia. Um silêncio opressivo imperava, o barulho de meu próprio passo cardíaco e respiração faziam-se presentes. Era tudo muito escuro, empoeirado e desconhecido.

O cômodo era longo e retangular. Em uma das extremidades, bem no centro da parede amarelada, uma pequena escada-caracol subia timidamente do chão de pedra - ela, também, era feita de pedra - e terminava poucos degraus depois, em um patamar e, finalmente, em uma porta. A única porta visível naquele lugar. Ela parecia trancada.

O local era preenchido por prateleiras de madeira escura, baixas e abarrotadas de livros e outras coisas que eu não ousaria adivinhar o que, de fato, eram. Havia apenas uma janela desobstruída - a luz do pôr-do-sol vazava pelo vidro riscado, pintando a superfície dos móveis e dos objetos de dourado. Um dourado quente, reconfortante e distrativo.

Eu estava no fundo. Sentada em uma das carteiras antigas que formavam duas longas fileiras pela sala. Passei o dedo pelo coração cravado no tampo da mesa de madeira. As letras "J" e "V" marcadas dentro da figura.

Para falar a verdade, eu não fazia ideia do que estava fazendo ali. Ou de como havia chegado. Mas não estava alarmada. Pelo menos ainda não.

Noto o fundo espelhado da prateleira à minha esquerda e logo vejo olhos grandes, escuros e redondos me encarando. Meus cabelos caem soltos pelos ombros, em cachos grandes e não uniformes. O que raios estou vestindo?

Me desvencilho da carteira, tropeçando no tecido preto e grosso que me envolve. Não tenho tempo de contemplar a peça, ou entender do que se trata. Imediatamente, sei que estou sendo observada - a sensação de ter olhos grudados à suas costas é inconfundível. Meu corpo gira no lugar sem considerar o que poderia encontrar do outro lado.

É uma mulher. Ela está em pé, parada há vários metros de distância. É alta, muito magra e branca, tem cabelos loiros. Por um segundo, penso em dizer "oi". Mas então vejo sua expressão...

Não sei bem como descrever a expressão. Palavras como "maliciosa", "desagradável" e "assustadora" passam pela minha cabeça, mas elas não são boas o bastante, não alcançam o tipo de emoção que aquele rosto transmite. Seus lábios se contorcem numa espécie de sorriso, e então se abrem num formato oval, um "O" quase perfeito.

Posso ouvir o som de sua voz, muito embora aquilo, de forma alguma, possa ser chamado de voz. É um gemido estralado e arrastado. Um assovio engasgado muito característico de pessoas que sofrem de asma. Mas é claro que isso não tem nada a ver com asma. O som se espalha e se arrasta pelo cômodo, atingindo as paredes e voltando como eco. É tão alto que eu penso em me abaixar e, quem sabe, ficar em posição fetal até tudo isso acabar.

Ao invés disso, eu só dou um passo para trás, alerta.

Obviamente, eu tenho algumas dúvidas vitais - onde eu estou? O que eu estou fazendo aqui? Quem é essa pessoa? O que é esse som que ela está produzindo? Porque ela fica me olhando dessa forma? Naturalmente, nenhuma delas é propriamente respondida.

Como se eu tivesse perdido vários minutos da minha vida sem perceber, a mulher está muito próxima a mim. Tão próxima, em tão pouco tempo, que eu dou um pulo involuntário para trás e me choco contra outra carteira. Escorrego e arrasto o objeto comigo para o chão quando caio.

A mulher abaixa o torço em minha direção e eu posso ver seu rosto de perto. Não há mais globos oculares - ou talvez nunca tenha havido. Lá de dentro, vagarosamente, começa a escorrer um líquido preto e gosmento. O cheiro é forte - como graxa e também algo azedo. O mesmo líquido passa a escorrer dos ouvidos dela e da boca. Algumas gotas escorrem pelo nariz.

Seguro a cadeira com todas as forças e a jogo contra a mulher. Não estou mais pensando. Apenas agindo.

A cadeira colide certeiramente contra a cabeça dela. E, por um segundo, acho que não fez efeito nenhum. Mas logo ela está no chão. Os braços abertos ao lado do corpo de um jeito vencido.

Levanto-me e, sem pensar muito sobre o assunto, adianto-me para a porta. Quando alcanço a maçaneta, ouço o som novamente. Lá, do outro lado da sala, a moça recomeça seu chiado.

Faço uma besteira, por impulsividade. Viro-me, e ela está há centímetros de mim. Os braços esticados grudam em meu pescoço e eu vejo, pela primeira vez, quem ela é.

Consigo bater a porta contra a mão dela até que ela desiste do meu pescoço, e eu a tranco lá dentro.



Quando eu finalmente acordo, sei que é tarde demais. Uma trilha de sangue corre pela cama, partindo do espaço entre as minhas pernas.
 




segunda-feira, 12 de março de 2012

Sobre emoções emprestadas

Ilustração de Jenny Yu | Ler ouvindo No Light No Light, Florence + The Machine



Vem, senta aqui. Divide sua paixão comigo. Me dá um pouco da sua dor, da sua cólera e do seu pavor. Tem lugar para tudo em mim.

Não tem segredo: a gente só senta e vê tudo queimar, a fumaça subir e a noite rolar. A gente se enrola.

Eu levo sua lamentação nos ombros. Passo as lágrimas por um cordão de dúvidas e penduro no pescoço. Estamos atadas pela nossa escuridão. Estamos atadas.

A noite termina e a gente foge para um lugar que não tenha luz. Vamos viver fugindo do medo, com medo do que ele pode dizer. Eu te acompanho aonde você quiser.

Porque eu e você já não temos salvação. Gastamos nosso crédito em promoção. Vamos viver de idealização. E morrer atadas. Estamos atadas à escuridão.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Sobre as quedas de abismos



Escrito por Juliana Cimeno e Lyvia Jardim


Eu não fazia ideia do caminho, essa era a verdade. Minhas pernas começaram a falhar mais ou menos uma hora depois que comecei a pedalar. Se tivesse ido mais devagar, teria aguentado mais, mas não teria aproveitado o vento no cabelo. No fim, o vento no cabelo sempre vencia qualquer batalha interna.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Sobre aquela que odiava o amor

AVISOS
1. Esse post, em particular, não é apropriado para menores de 18 anos.
2. Sou nova na arte de descrever atos sexuais, então talvez tenha falado alguma coisa idiota XD 

Foto: Junior Colferai / Ler ouvindo Snuff, Slipknot


"Existe a necessidade absoluta de se sentir desejado e neste círculo do desejo é muito raro que dois desejos se encontrem e se correspondam. O que é uma das grandes tragédias do ser humano" Pedro Almodovar



Acho que nunca percebi o quanto era problemática. Pensava mais nisso como "uma vontade de discordar". Lembro que, quando você me encontrou, eu estava bebendo Coca-Cola zero no bar. Pensei em pedir um copo de leite, mas seria extremo demais, e eu nem gostava de leite. Fiquei com a minha Coca.

Você achou divertido me ver sentada lá, com o canudo e açúcar, meu caderno aberto no balcão, um lápis 6B e pouca inspiração. Achou tão divertido, que se sentou ao meu lado.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Sobre eu, você e o tempo

"O tempo é fluido por aqui"
- Os Outros, Neil Gaiman




Dizem que o tempo é como a água. Parada ao seu redor, imóvel - desde que você também esteja parado. Mas, ao movimentar-se, formam-se ondas, que tamborilam pela superfície e lançam um fluxo descontínuo para o fundo. Ao atingir uma segunda superfície intransponível, a onda refaz o caminho e atinge seu criador.

Eu penso diferente. Para mim, o tempo é como fumaça. Se ficar em silêncio e prestar bastante atenção, pode senti-lo ao seu redor, frio e formigante contra a pele e sufocante aos pulmões. Mas, por mais que tente, não pode pegá-lo. A matéria do tempo esvaíra-se por entre os dedos a cada tentativa.

A única opção é seguir em frente e rezar para que não haja nenhuma coisa monstruosa, escondida logo à frente, observando.



#1
31 de dezembro de 1999

O telefone tocou às 22 horas em ponto. Desci correndo as escadas, quase tropeçando em meus próprios pés. Não esperava a ligação de ninguém em especial.

- Alô?

Do outro lado da linha, Ouvi barulho de vozes, buzinas e estouros, que lembravam fogos de artifício. Uma voz feminina gritou, por cima dos ruídos:

- ABBY?!?

- Sim. Quem fala?

- Ai meu deus!!! Isso é incrível! Sabe como isso é incrível? - a voz parecia realmente empolgada e eu começava a achar que fora engano. Ou talvez não, já que a outra sabia meu nome.

- Quem está falando? – insisti.

- Essa é uma ótima pergunta! Aqui quem fala é alguém que você ainda não conheceu! - a voz esgoelava, claramente maravilhada com algo que, naquele instante, estava completamente fora de minha compreensão.

- Desculpa... O que foi que disse?

Tinha certeza que a voz era desconhecida. Minha memória auditiva era ótima, e ela não pertencia a nenhum de meus amigos... A coisa mais lógica era reconhecer que aquilo era um trote e desligar. Mas... Um formigamento. Curiosidade. Aquilo era, no mínimo, curioso.

- Eu disse que ainda vamos nos conhecer, Abby, minha queridinha - a voz era sarcástica, mas não agressiva. Agora os ruídos iam desaparecendo, e a voz tornava-se mais clara. A pessoa devia ter fechado alguma porta, ou entrado em algum cômodo mais calmo - Mas não foi por isso que eu liguei!

- Ah, não? E porque foi que você ligou? - aquela mulher era maluca. Obviamente. A coisa sensata era desligar o telefone.

- Para te preparar. Sabe, as coisas por aí vão ficar um pouco complicadas nos próximos meses e, quem sabe, até nos próximos anos... Mas você precisa pensar positivamente.

- Complicadas, é? Complicadas como? E pensamento positivo é para quem gosta de se enganar. A melhor forma de se preparar é aceitar que merdas acontecem a todo o tempo - ou talvez a louca fosse eu, tagarelando assim sem nem saber quem falava do outro lado. Em resposta, a voz gargalhou. Uma risada gostosa.

- Abbyzinha, escuta só o que eu vou te dizer. Escuta, e guarda bem a informação, tá? Um dia você vai estar na pior, toda cheia de ideias malucas, energias negras e coisas ruins percorrendo suas correntes sanguíneas. É aí que você vai me conhecer. Talvez você não me reconheça de imediato, mas vai descobrir, eventualmente, quem eu sou. E é essa a parte importante da história, ok? Está me ouvindo?

- Uhm... Sim, estou. Claro - e eu realmente estava. Quem pode me culpar? Eu tinha 10 anos.

- Você precisa me contar. Quem eu sou, eu quero dizer. Você precisa me lembrar de quem eu sou, e o que tenho que fazer.

- Mas o que é que você tem que fazer? - eu perguntei, porque até aquele momento ela não tinha falado nada, nem mesmo quem ela era. Como é que faria qualquer coisa sem saber isso?

- Eu sou seu anjo, Abbyzinha. E eu tenho que te ajudar a perder o medo... - nesse momento, a voz da moça foi interrompida por um forte PI PI PI PI, que indicava que a linha havia caído.

Eu fiquei um bom tempo parada, com o telefone ainda colado ao rosto, sem respirar. Meus olhos não estavam focando em nada e minha mente estava apontada apenas em uma pergunta: perder o medo do que? Eu teria dito aquelas palavras em voz alta, mas me sentiria tola.

Aquele episódio todo sumiu da minha cabeça no dia seguinte. Porque é assim que as crianças são.


#2
31 de dezembro de 2011

Era a primeira vez que eu passava a virada do ano longe de casa e estava com um pouco de medo. Medo da perspectiva de estar crescendo, talvez, e do fato de que eu estava a quilômetros de casa e parecia que ninguém ali falava a minha língua. Mas era quase ano novo e eu queria superar. Peguei um copo novo na cozinha lotada de gente que eu não conhecia, preparei uma cuba libre das boas e virei tudo rapidinho.

Essa era a primeira festa que uma amiga minha dava em seu novo apartamento. Um apartamento só seu, bem longe de sua cidade natal. Tentei entrar nesse clima de liberdade.

A verdade é que eu não estava nem um pouco animada. Me sentia esmagada. Irritada. Cansada e contrafeita. Essas eram sensações que não me abandonavam há algum tempo e eu começava a imaginar se um dia elas chegariam a ir embora. Tentei afastar aqueles pensamentos, mas depois de abrir a porta para aquele tipo de assunto, era dificílimo fechá-la.

Despejei mais rum no copo, respirei fundo e explorei a casa. Olhei no relógio, 22 horas. Encontrei um cômodo vazio, uma espécie de quarto-banheiro, como uma daquelas cozinhas e salas divididas por um balcão. Era bem interessante. Sentei num pufe, escondida no canto e encostei minha cabeça na parede, respirando alto.

A porta se abriu abruptamente e antes que eu pudesse me mexer, tanto para sair dali ou para me esconder mais, ouvi a moça dizer:

- Eu disse que ainda vamos nos conhecer, Abby, minha queridinha... - e então tudo congelou.


#3
31 de dezembro de 2014

Eu beberiquei o café com cuidado, e me recostei na poltrona da cafeteria. Era um bom lugar para matar o tempo, se você gostasse desse tipo de coisa. Sabe como é - paredes de vidro, funcionamento 24 horas e café tinta. Tentei não cuspir o conteúdo de volta na caneca.

Li e reli aquele bilhete tantas vezes que estava quase furando o papel, mas continuava fitando-o. Eu sempre fui cética, sabe como é? Nunca acreditei nesse tipo de coisa, nem deixei que me fizessem acreditar. Fui sempre muito religiosa ao niilismo. Mas isso era completamente diferente. Ela fazia ser completamente diferente. E era impossível não acreditar.

Enxuguei uma lágrima do olho e funguei. Era um choro feliz, na verdade. Dei uma risada baixa. Isso era absurdamente típico dela. Dobrei com cuidado o papel e enfiei no bolso, peguei uns trocados e coloquei sobre a mesa. Saí em direção à praia, que estava alaranjada pelo sol nascente.

As palavras ainda tocavam na minha cabeça:


"Abby,

Sempre disse que te deixaria meu coração, para que você aprendesse a amar como se o mundo estivesse acabando. E agora você entende o quão séria minha promessa era.
Ele pode não pulsar, nem fazer tum tum, mas dentro dele você vai encontrar tudo o que precisa para vencer seu medo. Minha coragem e minha esperança. E quem sabe um dia desses não estarás se entregando a alguém como se fosse a única coisa que pudesse fazer? Quem sabe soltarás um suspiro!
Eu acredito nisso e acredito em você. Sempre acreditei. E é por isso que afirmo: essa não será a última vez que nos falamos. Porque afinal, eu sou seu anjo.
Te vejo do outro lado,
J"

Eu pendurei o cordão com pingente dourado de coração no pescoço, e atravessei a rua. Meu celular permaneceu em silêncio.